O dia em que vi o Cine Paradiso ser demolido

Carlos Moreira*

Eu estava lá. Não só eu, muito mais gente estava. Havia repórteres, fotógrafos, autoridades e diversos curiosos, além é claro dos técnicos responsáveis pelo trabalho. Enquanto uns aguardavam para ver o espetáculo fascinante que pode ser uma grande implosão, um grupo (numeroso, diga-se), ainda tentava impedir o ato que estava para se consumar. Tinham a esperança de conseguir uma liminar na última hora e assim ao menos protelar a detonação. Dentre estes, havia alguns mais radicais que cogitavam se amarrarem nas colunas de sustentação, servindo assim de escudo humano na defesa do grande templo. Mas essa atitude radical com certeza seria impedida pelo forte esquema de segurança montado pela polícia.

Assim como os ativistas, eu não queria que ele fosse destruído. Mas já estava resignado. Tinha ido assistir a demolição mais como um ato de último adeus, de despedida melancólica deste que foi o grande palco do futebol paulista e brasileiro durante mais de sete décadas! E enquanto aguardava seu sepultamento, lembrava dos grandes momentos que assisti aqui (pessoalmente ou pela tv). Eu, corinthiano que sou, não tive como conter as lágrimas ao lembrar das grandes conquistas que aqui aconteceram. Mas também amante do futebol de forma geral, não poderia me esquecer que o Santos aqui ganhou muitos títulos, e fez história com o rei, que o palmeiras foi o primeiro time a obter um título nesse gramado, e que o São Paulo aplicou a maior goleada já ocorrida aqui (12X1 sobre o Jabaquara), além é claro do recorde de público em maio de 1942, quando 72.018 privilegiados, assistiram à estréia de Leônidas da Silva o “Diamante Negro” pelo tricolor paulista, num majestoso que terminou empatado em 3X3. Lembrava assim dos fatos que vi e dos que ocorreram antes de eu nascer, e que tomei conhecimento por curiosidade e paixão pelo futebol, como as 6 partidas da copa de 1950 (inclusive uma do Brasil contra a Suíça que terminou empatada em 2X2).

"Panorama Pacaembu" por Rodrigo Soldon - Flickr. Licenciado sob CC BY 2.0, via Wikimedia Commons - http://commons.wikimedia.org/wiki/File:Panorama_Pacaembu.jpg#/media/File:Panorama_Pacaembu.jpg
Vista panorâmica do Pacaembu, em São Paulo (Foto: Rodrigo Soldon – Flickr. Licenciado sob CC BY 2.0, via Wikimedia Commons)

A paixão pelo futebol tão doentia quanto a que tenho pelo cinema, me atenta para o fato de que no cinema, assim como no futebol, as vezes a impressão que temos é que os grandes clássicos já ficaram no passado, e nunca mais voltarão. Resta-nos pesquisar nos arquivos. Se tivermos a sorte de ainda ter um espaço para mostrar o que já foi feito, podemos ter uma noção, ainda que vaga do que ficou para trás.

Mas eis que chega a hora. Não há mais o que fazer, somente chorar e observar a enorme nuvem de poeira em que se transformará em poucos segundos, mais de 70 anos de história. Naquele momento, acho que descobri exatamente o que “Totó” sentiu ao ver seu Cine Paradiso vir ao chão.

Acordo, respiração ofegante e assustado! Ufa, era só um pesadelo! Talvez decorrente de eu ter ficado pensando no aniversário de 75 anos desse templo, e imaginando o que será feito dele nessa era de novas arenas. E aí reordeno um pouco a cabeça, e penso que será difícil acontecer na realidade o que vi no meu pesadelo. O Paulo Machado de Carvalho, além de ser um espaço que com certeza vai ser utilizado eventualmente pelos grandes clubes de São Paulo, conta com o museu do futebol, que é uma delícia à parte para os amantes dessa arte, e é um ótimo espaço para shows. Fico aliviado ao concluir que teremos o Cine Paradiso do futebol paulista ainda por muito tempo!

* Carlos Moreira é graduado em Ciências Sociais pela UFPR e Servidor Público.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *