Minha vida não cabe na mochila

Por Simone Frigo *

Eu nunca entendi essas pessoas que conseguem ter o desapego de realmente levar a casa, a vida em uma mochila. Admiro com uma pitada de receio, mas não entendo. Tem aquelas que conseguem reduzir todos os seus objetos, fazendo-os caber em uma mala. Mas falo não só do desapego das coisas materiais, mas do desprendimento das pessoas e das lembranças. Tem gente que simplesmente coloca as roupas que precisa na mochila e sai.

Fico doida com isso! Primeiro que eu nunca levo apenas as coisas necessárias, levo sempre muito mais. E o pior, sempre me dou conta de que esqueci de algo fundamental. Ok! Mas também, sempre tem um monte de coisas que só fazem peso mesmo, peso material e emocional, que nunca uso ou preciso. Mas enfim, o que incomoda é que surge aquela culpa, pô, deveria ser um espírito mais franciscano. A liberdade do desapego! Que coisa linda!

Mas sabe, pensando bem, que merda que é essa culpa católica!

Minha vida não cabe em uma mochila. Como levaria meus gatos? Minhas fotos, meus livros, aquela bota que eu nunca usei, mas gosto de saber que tenho ela lá. Fora meus amigos, meus amores… Desculpa, mas não cabe e também não quero me desfazer de quase nada.

Quando você passa muito tempo na estrada, começa a desenvolver algumas rotinas. Uma das minhas é ficar prestando atenção nas frases de para-choque dos caminhões. Gosto muito da que diz: “Viajo porque preciso, volto porque te amo”. Interpreto ela como viajo porque preciso, porque quero, e volto pelo mesmo motivo. Por opção. E o melhor é que, na volta, sempre trago mais do que levei. A mochila sempre vem mais cheia, de coisas e experiências. E vou acumulando sim.

Um dia uma amiga me disse que o “nosso problema” é a bagagem… que ela é meio pesada…rs. Mas isso é outro assunto.

* Simone Frigo é doutoranda em Antropologia Social pela UFSC. Feminista e militante da esquerda festiva, no melhor sentido da expressão. Gateira e sonhadora, mas acredita no Belchior quando esse diz “o meu delírio é a experiência com coisas reais”.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *