O pé frio é genético?

*Por Bernardo Pilotto

bernardo1Essa crônica foi originalmente escrita sob encomenda da Gazeta do Povo, a partir de contato do jornalista Sandro Moser, as vésperas do carnaval de 2015. Mas este foi um carnaval cheio de acontecimentos por aqui, visto que a semana anterior aos festejos de Momo viu a ALEP ser ocupada por duas vezes. No meio de tanta coisa, nunca fiquei sabendo se o texto foi realmente publicado. Esta é, portanto, uma versão ampliada e revisada do texto de um ano atrás.
Me pediram pra escrever uma crônica sobre um carnaval inesquecível. Tarefa difícil, visto que  os melhores carnavais são aqueles que não lembramos (esse alerta foi muito bem feito pelo Luiz Antônio Simas no Facebook). Por isso, falo aqui do tempo de criança.

Meus pais se mudaram para o RJ no final de 1983, pouco antes do meu nascimento (em 17 de fevereiro de 1984). Por lá, logo ficaram amigos de um casal que era muito carnavalesco e que sabia os “procedimentos” para ir a folia na recém inaugurada “passarela do samba”. Isso logo chamou atenção da parentada curitibana, que viu suas chances de ir passar o carnaval no RJ aumentadas, visto que agora tinham uma casa para ficar.

Além de bailinhos infantis, os carnavais da minha infância foram marcados pela curiosidade em ver meu pai, minha mãe e os familiares que nos visitavam indo assistir os desfiles na Sapucaí. A casa ficava lotada, eu era despejado do meu quarto e tomar Coca-cola pela manhã era permitido (“dizem” por aí que é ótimo pra curar a ressaca). Logo aprendi que carnaval tinha tudo a ver com a transgressão das regras cotidianas.

E outra coisa também era marcante: como escolhiam por assistir apenas um dos dias de desfile, meus pais e parentes sempre reclamavam não ter visto a campeã desfilar. Até que, cansados dessa sina, resolveram comprar ingressos para os dois dias.

Quando eu tinha 9 anos, nós nos mudamos pra São Paulo e logo depois viemos para Curitiba.

Aos 22, achei que era hora de voltar ao RJ. E voltei também aos desfiles. Sempre fui em um dos dias. E, desde então, nunca assisti a campeã desfilar. Se vou na segunda, a campeã é de domingo. E vice-versa.

É… o pé-frio é genético! Espero que, ao ler esse relato, ninguém me impeça de entrar em algum de desfile nos próximos anos!

Outras crônicas e textos do autor sobre o tema:

Crônica de um carnaval pelado

Carnaval e samba-enredo ao longo da história

* Bernardo Pilotto é sociólogo e trabalhador do Hospital de Clínicas, mestre em Saúde Pública pela Unifesp. Foi o candidato do PSOL ao governo do estado do Paraná em 2014. Nas horas vagas, vai ao samba do Sindicatis.

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