A G.R.E.S. São Clemente e o PT – por Bernardo Pilotto

Fundada em 1962, a Grêmio Recreativo Escola de Samba São Clemente ficou conhecida mesmo apenas nos anos 1980, quando chegou ao Grupo Especial com seus enredos polêmicos e críticos. A escola, do morro Dona Marta, localizado na Zona Sul (no bairro de Botafogo), foi a que mais foi influenciada pela conjuntura política da época. Ainda que outras escolas também fossem influenciadas pelas lutas pelo fim da ditadura militar e por direitos sociais que sacudiram o país na época (destaque para os sambas “Eu Quero“, do Império Serrano em 1986, “Assombrações“, da União da Ilha em 1986, “Direito É Direito”, da Vila Isabel em 1989, “100 Anos de Liberdade, Realidade ou Ilusão“, da Mangueira em 1988 e “E Por Falar Em Saudade…“, da Caprichosos de Pilares em 1985), nenhuma delas teve tantos enredos críticos e politizados como a São Clemente.

Por isso, ficou conhecida como a “PT do samba”. Naquele momento, isso era o equivalente a dizer que a escola priorizava a crítica a situação social do país, mesmo que isso lhe custasse a chance de titulo, patrocínios (que começavam a surgir com força, especialmente a partir do enredo de 1985 do Império Serrano) e até a própria permanência no Grupo Especial (1ª divisão do carnaval carioca, que teve muitos nomes ao longo dos anos).

E os enredos da São Clemente eram quase que como setoriais de um partido de esquerda. Em 1985, o samba foi “Quem casa quer casa“, sobre as demandas por moradia, e a escola acabou sendo rebaixada; em 1986, o tema foi saúde (“Muita saúva, pouca saúde, os males do Brasil são“) e a escola conseguiu novamente subir para o Grupo Especial; em 1987, o tema foram os meninos de rua, no emocionante “Capitães de Asfalto“, e a escola ficou em 10º lugar, permanecendo na “elite do samba”; em 1988 o tema foram as lutas sociais de modo geral em “Quem Aviso Amigo É” e a escola novamente ficou em 10º lugar; em 1989 a crítica veio firme contra os espoliadores do país, nacionais ou estrangeiros, em “Made in Brazil, yes nós temos banana” e a escola se segurou no Grupo Especial com a 13ª colocação; já em 1990, a escola conquistou sua melhor colocação da história, arrancando um 6º lugar com “E o Samba Sambou…“, que faz uma crítica ao processo de mercantilização do carnaval.

Os sambas impressionam pela potência de suas críticas. A escola, por exemplo, falou de temas que ainda nem eram considerados direitos sociais, visto que alguns desfiles foram feitos antes da Constituição de 1988. Em 1986, a escola falou que a Nova República daria um “fim no Delfim”, que havia sido o ministro da economia mais identificado com os militares. O samba de 1987 é incrivelmente antenado com a luta contra a redução da maioridade penal e em 1990 a escola parece prever o futuro em relação a mercantilização dos desfiles.

A década virou e a São Clemente continuou a resistência: em 1991 foi rebaixada para o Grupo de Acesso (13º lugar) com “Já vi este filme“, que abordou novamente o carnaval, desta vez sem o contorno crítico do ano anterior, e em 1992 a escola veio com “E o Salário, Ó“, sobre educação, ficando em 7º lugar, o que fez com que a escola continuasse no Grupo de Acesso.

Mas aí o peso dos anos 1990 e da sensação de que “não há alternativa” começou a pesar, tanto na escola quanto nos jurados, que passaram a olhar com mais rigor para estes temas “feios”. Com raras exceções, as demais escolas também abandonaram estes temas e passaram a focar em temas que pudessem render patrocínios (uma boa exceção foi “E Verás Que Um Filho Teu Não Foge a Luta“, do Império Serrano em 1996). A crítica da São Clemente ainda teve alguns fôlegos, como “Maiores São os Poderes do Povo… Se Liga na São Clemente“, em 1998, fazendo com que a escola fosse vice-campeã do Grupo de Acesso e conquistasse o direito de voltar para o Grupo Especial.

Essa história foi sepultada em 2010, quando a São Clemente desfilou com “Choque de Ordem na Folia“, enredo que fez a defesa do processo de higienização social organizado pela Prefeitura do Rio de Janeiro. Depois disso, ainda que a escola tenha voltado a falar de temas sociais, passou a fazer isso sem o mesmo conteúdo que a caracterizava.

No fim das contas, a São Clemente acompanhou a trajetória do PT. Continua, portanto, sendo a “PT do samba”.

Saiba mais:

São Clemente 1987, O Carnaval dos Meninos de Rua

Outras crônicas e textos do autor sobre carnaval:

Crônica de um carnaval pelado

Carnaval e samba-enredo ao longo da história

O pé-frio é genético?

* Bernardo Pilotto é sociólogo e trabalhador do Hospital de Clínicas, mestre em Saúde Pública pela Unifesp. Foi o candidato do PSOL ao governo do estado do Paraná em 2014. Nas horas vagas, vai ao samba do Sindicatis.

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