Eu odeio a Imperatriz (ou “As vitórias que não mereciam vencer”)

*Por Bernardo Pilotto

bernardo1Apesar do “Martin Cererê“, do Zé Katimba e do “O Que É Que a Bahia Tem?“, não tenho dúvidas: eu odeio a Imperatriz! E não é por conta do enredo nonsense de 2016; o  meu problema vem de bem antes.

Lá no início dos anos 1990, quando eu tinha algo em torno de 6 anos, comecei a acompanhar competições, esportivas e de carnaval. Nessa época, torcia para aquele que era o “mais fraco” ou “do contra”. Não havia um critério único para estabelecer isso, mas me lembro de estar relacionado ao time/equipe que tinha menos títulos ou que não estava ganhando. Foi assim que passei a ser contra o São Paulo no futebol, contra os EUA nas Olimpíadas e contra a Mocidade Independente no carnaval carioca.

Depois, tudo isso foi ficando mais refinado. No caso do carnaval, o importante era animar, ter um samba, empolgar. Afinal, é uma disputa que envolve samba, música, alegria. Por estes aspectos, as vitórias da G.R.E.S. Imperatriz Leopoldinense da metade dos anos 1990 até o começo dos anos 2000 pareciam ser mais um reforço para a tese neoliberal de que não havia mais alternativa (confira aqui o texto que escrevi sobre esta teoria e o samba nos anos 1990), de que querer que a escola vencedora fosse alguma que tivesse empolgado a plateia fosse pedir demais.

Mais do que o número de vitórias (foram 5 entre 1994 e 2001), o que incomodava era ver desfiles xôxos, sem emoção, ganharem ou sempre estarem para ganhar carnavais. Era a supremacia da “técnica”, da “organização”, contra a “emoção”, os sambas que se eternizam, etc. O ciclo foi quebrado com a vitória da Mangueira em 2002, que veio através do samba-enredo mais lembrado do século XXI.

Depois disso, vimos surgir uma “outra Imperatriz”, a Beija-Flor, ainda que com suas características próprias. Observando os carnavais da Imperatriz, a Beija-Flor procurou aliar técnica com a presença da sua comunidade nos desfiles, o que fazia com que os sambas fossem cantados. Em algumas ocasiões, trouxe também enredos que tinham fácil adesão. O auge disso foi o título conquistado com a homenagem ao cantor Roberto Carlos. Ali a Beija-Flor achou que podia falar sobre tudo, que era invencível. Mas acabou, literalmente, caindo do cavalo, quando fez um enredo sobre o “cavalo Manga Larga” (mesmo assim foi vice-campeã) e, depois, sobre o global Boni, ocasião em que ficou em 7º lugar, pior colocação em 22 anos. Em 2015, o samba da escola de Nilópolis falava em “resgatar sua alma africana” e acabou conquistando mais uma vitória.

Mas, voltando a Imperatriz, ainda vale registro que a escola “sumiu do mapa” das campeãs após seu tricampeonato (1999/2000/2001). Para os mais novos, nem faz mais sentido “odiar a Imperatriz”, visto que por muitas vezes esta escola apenas lutou para não cair e até fez sambas muito interessantes.

Tomara que, para os próximos anos, o samba-enredo volte a ser algo relevante para o titulo das escolas de samba. Quem sabe assim poderemos voltar a ter essas músicas cantadas ao longo do ano, como os que me acostumei a cantar desde que nasci.

Outras crônicas e textos do autor sobre carnaval:

Crônica de um carnaval pelado

Carnaval e samba-enredo ao longo da história

O pé-frio é genético?

A G.R.E.S. São Clemente e o PT

* Bernardo Pilotto é sociólogo e trabalhador do Hospital de Clínicas, mestre em Saúde Pública pela Unifesp. Foi o candidato do PSOL ao governo do estado do Paraná em 2014. Nas horas vagas, vai ao samba do Sindicatis.

 

 

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