Uma lição de esperança

Foto: Joka Madruga

12 de fevereiro. Fazia dois dias que a sede do Poder Legislativo do Paraná havia sido ocupada por manifestantes.

Naquele dia 10, dois dias antes dessa foto, um formigueiro humano havia tocado os deputados pra fora de suas cadeiras almofadadas. Alguns deputados saíram dignamente, pois desde o início haviam discordado dos os fins e/ou dos meios do então Governador do Estado. Outros saíram raivosos com o esculacho a que se viram submetidos, produto líquido e certo da incompetência política desse mesmo Governo. Outros, ainda, saíram completamente encagaçados, confusos e assustados diante da massa popular indignada que contra eles se impunha.

Professoras/es, funcionárias/os, estudantes. Mães e pais. Filhos, irmãos, avós. Massa popular indignada. Indignada contra um Governador que não queria conversa. Indignada contra deputados adestrados, que tradicionalmente não leem e não questionam nada, só votam “sim”. Indignada contra aquela política mesquinha, contra o voto de cabresto, contra a tentativa surpresa de jogar o rombo das contas do Governo pra cima das escolas. Talvez você não se lembre, mas no início de 2015, às vésperas do início do ano letivo com 5 mil novos professores concursados (em substituição a contratos temporários), a maioria das escolas não contava nem com metade da sua equipe de trabalho e, em muitos casos, não era porque as contratações estavam atrasadas, mas sim porque muitas vagas não existiam mais e cada escola que se virasse com o que tinha. Não bastasse isso, outra peça chave do “pacote de maldades” – como passou a ser chamado o pacote de medidas do Governador – foi o fim dos quinquênios nos planos de carreira da educação. Na prática, essa mudança prejudicava quem já estava na ativa e tornava menos atrativa a carreira já não tão atraente do magistério.

Mas não interessava. Não havia espaço para diálogo. O Governador havia determinado que a batata quente iria parar na mão da educação, e ai de quem não obedecesse e não votasse como ordenado! “Mas como os deputados poderiam votar, com aquele povo todo acampado dentro do plenário?”, talvez tenha se indagado algum nobre legislador. “Ora bolas, não vamos perder para esses baderneiros, coragem tem nome, deixem comigo!”, talvez tenha respondido alguém da Secretaria de Segurança Pública. “Tanto faz, contanto que resolvam essa bagunça, escrevam meu discurso e providenciem uma entrevista ensaiada enquanto jogo videogame aqui no Chapéu Pensador”, talvez tenha pensado alguém do núcleo duro do Governo.

Mas não era tão simples. O movimento de manifestantes – o formigueiro – crescia e ficava cada vez mais organizado. Grupos de manifestantes bloqueavam todos os portões da ALEP e do Tribunal de Justiça (edifício ao lado), revistando os carros dos desembargadores que insistiam entrar, para garantir que nenhum deputado sem vergonha entrasse disfarçado ou escondido em algum porta malas. Bloqueavam ruas de acesso ao Centro Cívico, na tentativa de evitar manobras da Polícia Militar, que se entocava no Palácio Iguaçu e que, sabíamos, tentaria nos vencer pela força. Não deu outra. Aproveitando uma esquina desprotegida pelos manifestantes, um cordão de Policiais Militares se aproximou e isolou o acesso a um trecho das grades da ALEP. Em seguida, um ônibus da tropa de choque (posteriormente associado a um camburão) adentrou a área isolada, apoiado por soldados e pelo Caveirão do CHOQUE (presente da Dilma).

2015-02-12 entrada dos deputados

Policiais Bombeiros se aproximaram com alicates e serras elétricas, como se fossem resgatar alguém preso às ferragens num acidente de trânsito, e romperam as grades de aço, abrindo uma entrada pelos fundos da Assembleia. Os manifestantes gritavam a plenos pulmões: “COVARDES!”. Alguns professores romperam a linha policial e se colocaram em frente ao camburão onde vinham os deputados, impedindo-o de prosseguir. O Secretário de Segurança desce para recepcionar e tranquilizar os deputados, mas é surpreendido por um professor que bloqueia sua passagem. Assustado, o Secretário de Segurança – deputado da bancada da bala – corre para trás dos policiais. Os professores são retirados à força da área em isolamento e os deputados conseguem passar pelas grades serradas, sendo escoltados até o restaurante da Assembleia. No restaurante, sem a imprensa, sem a sociedade, sem o apoio da opinião pública, protegidos pelo monopólio da violência, tentaram retomar de onde haviam parado – o pacotaço de maldades seria votado em regime de Comissão Geral.

Aos poucos, entretanto, a informação se espalhou e a multidão se agitou. Não havia como segurar aquele mar de gente. Cumprindo suas ordens, a polícia tentou novamente usar a violência para conter os manifestantes, mas era tarde demais. O povo revoltado havia tomado o controle total da Assembleia Legislativa. Ainda que contassem com seus seguranças e poucos PMs, os deputados estavam agora ilhados e nada garantia que conseguiriam sair ilesos de lá. Encurralados, deputados e Governo, não houve saída além de retirar de pauta os projetos

O dia 12 de fevereiro de 2015 entrou para a história de Curitiba e do Paraná. Nesse dia os professores lutaram e venceram no Centro Cívico. Nas escolas e nas ruas, nos deram uma lição de esperança. Um ano depois, entretanto, pergunto ao hipotético leitor: já começou a fazer sua tarefa de casa?

Enzo Maschio Autor

Enzo Maschio Figueiredo, ex-economista e ex-professor da educação pública do Paraná, é pedagogo e educador ambiental na ITAIPU Binacional.

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