Tempos de mudanças

A mudança nunca é fácil. Mas já morei em tantas casas (que nem me lembro mais) e posso dizer que um bom começo é saber para onde você está se mudando. Por exemplo, se estão derrubando um presidente, é bom saber quem assumirá o comando. Não que estivesse bom, mas é que não parece uma mudança para melhor. No meu caso particular, garanto que minha mudança teve um bom começo, pois eu já sabia que estava me mudando de Curitiba para Foz do Iguaçu.

Ontem, enquanto desempacotava bibelôs – dentre os quais uma pequena coleção de estatuetas de corujas, um dos símbolos da minha profissão de pedagogo – observei a reportagem na página de jornal utilizada como papel de embrulho: “Justiça Militar arquiva processo da Batalha do Centro Cívico”.

A notícia era antiga, do mês passado (março), mas ainda assim desconcertante, principalmente na semana em que o 29 de Abril faz seu primeiro aniversário. A justificativa dada pelo Juiz Militar para arquivar o processo é muito parecida com o senso comum que eventualmente ouço por aí, na boca pequena: “os policiais apenas cumpriram o seu dever”. Mas pera aí: qual é o dever da Polícia Militar numa situação dessas?

Em fevereiro de 2015, quando o clima já estava tenso por conta da resistência ao ajuste fiscal imposto pelo Governo do Paraná – que nos enfiava goela abaixo um aumento dos impostos estaduais e o corte de serviços públicos, como o fechamento de turmas e atendimentos em colégios estaduais – escrevi um texto argumentando que o dever da polícia era “permitir que a democracia acontecesse”.

Mas qual democracia? A democracia da conivência do Presidente do Legislativo Estadual e da “Bancada do Camburão” que votou o pacotaço porque o bombardeio era nos manifestantes e não nos deputados? A democracia da covardia do Secretário de Segurança que acusa publicamente (e equivocadamente) estudantes de enfermagem da Unioeste de serem terroristas com coquetéis molotovs? A democracia da violência do Governador que, ao invés de negociar a solução para o impasse, convoca até mesmo o Batalhão de Fronteira – deslocando policiais e viaturas há centenas de quilômetros de distância – e autoriza a violência da tropa de choque, com caveirão, helicópteros, cachorros, atiradores de elite, spray de pimenta, bombas de gás lacrimogênio e balas de borracha contra os manifestantes? Ou seria a democracia do impítima, na qual deputados vendidos dedicam seus votos à seus Deuses e às suas famílias, demonstrando na cara dura como se apropriam da política para seu próprio benefício? Sacro Santo! A que ponto chegou o sequestro da democracia?

A notícia do jornal velho, que poderia ter sido jogado no lixo mas que foi reaproveitado como embrulho nessa mudança, se referia ao arquivamento do inquérito da Justiça Militar. Que pensar disso? Que tal: por que uma justiça militar numa situação de violação de direitos civis? Ou então: será que massacrar civis desarmados e não permitir o socorro dos feridos não seria um crime de guerra? Que a justiça militar iria colocar panos quentes e lavar as mãos nós já sabíamos, mas considerando que o Ministério Público já ofereceu denúncia, cadê o julgamento no judiciário? Cadê os deputados estaduais analisando e votando o impítima protocolado na ALEP pelos crimes de responsabilidade cometidos pelo Governador do Paraná?

Mudança. Que mudança?

Mudança dá trabalho. Sim, você até pode terceirizar uma parte, contratar alguém para empacotar e/ou para fazer o carreto, porém quanto menos envolvido você estiver, pior será o resultado. E mesmo fazendo quase todo o trabalho, se você não tomar cuidado pode acabar estragando alguma mobília ou aquele enfeite de imenso valor sentimental. Pois então. O mesmo vale para mudanças políticas: quanto menos você se envolver, pior será o resultado. E depois que o estrago já tiver sido feito, não adianta culpar o outro. Portanto, como já disseram por aí, “façamos nós, com nossas mãos, tudo que a nós nos diz respeito!”. Vamos ocupar a política!

Enzo Maschio Autor

Enzo Maschio Figueiredo, ex-economista e ex-professor da educação pública do Paraná, é pedagogo e educador ambiental na ITAIPU Binacional.

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