Meu herói … tomou um tiro na cara

*Por Bernardo Pilotto

bernardo1“Meus heróis morreram de overdose
Meus inimigos estão no poder”
Cazuza

29 de abril de 2015. Quarta-feira. 16h04. Enquanto marco consultas de Fisioterapia no HC ao mesmo tempo que leio aflito as notícias dos jornais que acompanhavam lance a lance os acontecimentos no Centro Cívico, meu celular apita e a mensagem é assustadora e traz um pedido quase impossível: “Cara, tomei um tiro. Tô no Cajuru. Mas tá ok. Tranquiliza o pessoal”.

Nos minutos seguintes, o diálogo segue. Tento cumprir a missão de tranquilizar “o pessoal”; aproveito também para falar com a mãe e a irmã de nosso personagem. Logo após me contar detalhes do ferimento, ele começa a perguntar  sobre o que acontecia do lado de dentro da ALEP: “Votaram? Vão votar?”. Por fim, a conclusão: “O Richa conseguiu o 30 de agosto que queria”.

Assim que posso, corro para a praça Nossa Senhora de Salete. Nunca havia sido tão torturante ter que cumprir minhas horas de trabalho no Hospital de Clínicas. Depois de passar a noite de 28 para 29 de abril acampado na praça, de ter ajudado a carregar um abastecimento de caixas de água logo pela manhã do dia 29 (junto uma turma muito firmeza da Unicentro de Irati), de ter participado ativamente da ocupação de 12 de fevereiro, de ter enfrentado Beto Richa no debate da RPC/Globo, era incrível que eu não estivesse lá junto a tantos camaradas naquela tarde.

Os dias seguintes foram intensos. Ligações de tudo que é lugar, aniversário de 30 anos da prima, presença da Luciana Genro em Curitiba no 01º de maio, solidariedade dos parlamentares do PSOL nas tribunas Brasil afora, articulação de uma campanha “Fora Beto Richa”, pedido de impeachment.

E o nosso personagem? Bom… apesar de não usar cueca em cima da calça, dá pra dizer que ele é um herói, pelo menos pra mim.

No Ensino Médio, era o quieto da turma. Pudera, com aquela turma, a maior vontade que tenho hoje era de ter ficado quieto mesmo. Depois, nos encontramos na campanha eleitoral de 2002, na Marechal no dia da vitória do Lula (onde, na volta, num banco do biarticulado, ele me avisou que ninguém do PT queria mudanças de verdade) e logo depois na faculdade. Além de fazer a maior parte das matérias na minha turma (devido a um desempenho, digamos, irregular, no primeiro ano de curso), morávamos perto. Ou seja, companheirismo a todo momento, quase 24h juntos.

E era muita coisa: viagens a São Paulo e Brasília, vidro quebrado, tornozelo cortado, Reforma da Previdência, ENECS, sociologia no ensino médio, FEMECS Ice, Inferno de DANC, Mova-se, DCE, O2, CACS, Manifeste-se, Pipoteka no RU, lanches na APUFPR, Congressos da UPE e da UNE, PSOL, Lamarão, Cimples, Jorge Mautner, cafofo, Empório, Alexandre Nero & A Maquinaíma, double drink, arquibancada popular, Adega da Velha, comanda sobressalente.

Foram anos intensos. Depois, ele foi pra Pelotas, eu fui pro HC. Nossa convivência deixou de ser diária. Mas a memória daquele tempos permaneceu. Foram muitos ensinamentos, leituras comuns, militância, organização de manifestações, campanhas eleitorais. Quem não viveu aqueles anos tem até dificuldade de entender.

A intensidade de 2015 nos reaproximou. A felicidade de ver ele animado novamente com a militância era imensa. Troca de ideias, repasses, piquete, comando de greve. Que felicidade em conversar sobre esses assuntos de novo.

Naquela semana, havíamos nos visto rapidamente. Juntos, caminhando da praça 19 até a Nossa Senhora de Salete. Depois do tiro, só por mensagem de celular e na saída da sua consulta médica. No sábado, fomos em comitiva até a casa da Célia. Foi um grande reencontro. Estávamos todos lá. De novo. Me senti numa Vinhada do CACS de 2003.

Felizmente, nosso herói não baixou a cabeça. Foi lenta sua recuperação. Mas ele está lá, no Colégio Estadual, “king of Sociology”. De vez em nunca, pinta um samba do bom para ele aparecer. Quase todo dia, dá um oi virtual e reclama de algum governista oficialista.

E eu? Fico feliz de esta com ele quando dá chance e procuro aproveitar estes momentos intensamente.

* Bernardo Pilotto é sociólogo e trabalhador do Hospital de Clínicas, mestre em Saúde Pública pela Unifesp. Foi o candidato do PSOL ao governo do estado do Paraná em 2014. Nas horas vagas, vai ao samba do Sindicatis.

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