Princesa Isabel

*Por João Guilherme de S. Corrêa

20_09_2016_15_18_09Princesa Isabel. Este é nome da cidade de onde o Luciano me disse que veio. Não vou nem procurar no Google onde essa cidade fica. Ele falou que é perto de João Pessoa e, pra mim, essa informação basta. Não tenho razões para não acreditar. No entanto, antes de falar que era de lá, já tinha ficado sabendo que ele era de algum lugar da Paraíba. Ele tinha dito que era paraibano: “Me chamam aqui de Baianinho, mas eu não gosto. Sou paraibano. São raças diferentes”, confessou.

Conheci Luciano como Baianinho no futebol da segunda-feira, quando ele jogou no gol para o meu time. Mas foi só após o futebol da quinta-feira é que conversei com ele. Fomos convidados por outros jogadores para comer alguns peixes fritos que as esposas de alguns dos jogadores do time prepararam na cozinha da quadra. Entre um peixe de Três Marias e outro, eu bebendo cerveja e ele refrigerante, Luciano me disse que tem 22 anos, que é casado, que não tem filhos e que não bebe. Disse ainda que é paraibano, mas mora em Marília (interior de São Paulo) e que lá trabalha como servente de pedreiro. Tem outras coisas de Luciano que ele não disse e que não tem como não saber: ele usa um corte de cabelo à la Neymar no Santos (descolorido e tudo) e é negro. Disse também que tem uma casa “daquelas que o governo dá” numa favela da cidade.

 O curioso foi perceber que quando ele falou que sua casa era na favela, notei nele um certo estranhamento por sua essa condição de moradia. Conclui, com a velocidade de um pensamento: de certo ele já estava acostumado à pobreza típica do interior da Paraíba e a favela da cidade do sudeste era uma situação diferente pra ele, uma pobreza nova. No entanto, vendo os fatos agora, quando escrevo esse texto, fico pensando se o estranhamento, na verdade, não era meu. Por ser negro, pobre, nordestino e beneficiário de um programa habitacional do governo em uma cidade de médio porte do sudeste, talvez fosse natural na minha cabeça que a favela fosse parte irrestrita dele e me espantei em perceber que a sua condição não era um dado absoluto também para ele. Espantei um pouco na hora da conversa. Agora me espanto mais.

Luciano me disse que na época da colheita do feijão vem pra Lagoa Formosa trabalhar nas fazendas da região. Fica hospedado na casa da mãe – que casou e veio morar nessa cidade. Trabalha para receber por produtividade, não por dia. Sem carteira. “O trabalho por dia paga pouco”. Ganha cerca de 170 reais trabalhando por produtividade num dia. Acorda às 3h30 da manhã. Às 4h está no ponto para esperar o ônibus. Por volta das 6h, quando o dia começa a clarear, eles e seus companheiros já podem começar a arrancar o feijão da terra. Esse serviço não pode ser feito no escuro, pois tem muita cobra (“cascavel”). Lancha um pão e um suco que leva da casa da mãe. Até o meio-dia fica na lida de arrancar feijão. Se parar pra almoçar, perde tempo e o trabalho rende pouco; se comer muito, fica cansado e com sono e o trabalho rende pouco. O trabalho no feijão para ao meio-dia: “É porque senão o feijão esbugalha” [com o calor], fala Luciano.

O trabalho não é fácil não, moço. Não é pra qualquer um. Não é por nada não, mas nunca vi um mineiro trabalhando lá. Só paraibano, maranhense…Tem que ser forte.” Outra vez me espantei. O trabalho braçal também cansa os já acostumados a ele. Luciano também pensa sobre seu trabalho. Luciano trabalha e pensa, pensei.

Quando volta do trabalho, fica esperando para jogar futebol, que adora. Joga como goleiro. Para que as partidas aconteçam a contento dos jogadores, ter um goleiro fixo por time é fundamental. Quem joga pelada sabe que na falta de um goleiro fixo, os jogadores de linha têm que revezarem-se no gol para que a partida aconteça. Quando tem um goleiro, a qualidade da pelada é melhor. Luciano joga no gol. Ele recebe 7 reais por pelada para jogar nessa posição. “Menos na quarta, quando me pagam um garrafa de Coca-Cola.” Como Luciano não conhecia ninguém na cidade antes que o pudesse convidar para jogar futebol, ele passou a oferecer sua mão de obra goleira para os times e assim conseguir brincar com o que gosta.  Para Luciano, até o lazer parece ser uma forma de trabalho.

Luciano não tem carteira assinada, não estuda, não paga previdência. Praticamente vive para trabalhar e jogar futebol.

Não sei por que estou contando a sua história. Ela não tem um final. Provavelmente nunca mais verei Luciano e jamais saberei os rumos que sua vida tomou. Não tenho nenhum propósito de transmitir uma lição de moral ou de esperança. Histórias de vida como a de Luciano são comuns no Brasil e que também mereciam toda a atenção da história. Não sei por que fiquei pensando no Luciano. Sei lá, acho que só comecei a falar do Luciano porque me lembrei de Princesa Isabel.

*João Guilherme de S. Corrêa é Professor da Unespar em Paranaguá. Queria ser só óciologo. Pensa que escreve

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