Uma nova safra de sambas-enredo

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Por Bernardo Pilotto*

Em fevereiro de 2016, pouco antes do carnaval, tive a oportunidade de assistir o historiador Luiz Antônio Simas dando uma entrevista para o jornal O Globo. Havíamos combinado um encontro e eu fui até a Vila Isabel atrás dele, com quem já conversava pelo Facebook (esse encontro já mereceria uma crônica própria). Durante a entrevista (que acabei nem conseguindo ler), ele afirmou uma coisa que chamou a atenção: a crise econômica faria bem às escolas de samba.

Simas emendou uma explicação na hora: com a crise haveriam menos patrocínios e, desta forma, as escolas teriam mais autonomia na hora de escolher os seus enredos. Ele ainda citou os anos 1980 como exemplo de uma época parecida e fez questão de colocar que não podemos ver as escolas de samba como coitadinhas que foram engolidas pelo dinheiro; segundo ele, por muitas vezes a iniciativa de enredos patrocinados partiu das próprias escolas.

Na hora isso soou estranho. Até então, avaliava que a profusão de enredos com críticas sociais nos anos 1980 (especialmente na Caprichosos de Pilares e São Clemente, mas que se espalharam também por União da Ilha, Mangueira, Salgueiro, Império Serrano e Vila Isabel) era muito mais fruto do contexto social e econômico que o Brasil vivia na época do que da falta de patrocínios. Muito provavelmente, esses dois fatores são os que mais influenciaram o mundo do samba na época.

Para mim, a importância da falta de dinheiro ficou mais evidente com os sambas e enredos dos carnavais de 2016 e 2017. Isso porque vivemos um contexto de grave crise econômica mas sem termos um protagonismo de lutas sociais (ainda que elas existam, estão no campo da resistência e são muito menos fortes do que as dos anos 1980, quando os movimentos sociais chegaram a ter protagonismo no dia-a-dia nacional).

E a falta de dinheiro tem sido realmente positiva para a qualidade dos enredos. Neste últimos anos, estamos vendo um crescimento de enredos sobre as religiões afro-brasileiras, sobre artistas e músicos que não estão no centro do showbizz (como João Nogueira, Beth Carvalho, Gonzaguinha e Zezé Motta), sobre personagens históricas ausentes da história oficial (como João Cândido) e até a presença de algumas críticas sociais. Até a Beija-Flor, um símbolo do adesismo, falou em “resgatar suas raízes africanas” depois de se dar mal numa homenagem a Boninho. O patrocínio ainda existe, mas agora restrito a algumas poucas escolas do Grupo Especial.

Estamos vendo, também, uma safra de sambas mais cadenciados e alguns com inovações estéticas. No âmbito da estética, vale destacar a turma de compositores ligada a Felipe Filósofo, responsáveis pelo samba da Acadêmicos da Sossego em 2016 (que não tem nenhuma rima, em conformidade com as poesias do homenageado Manoel de Barros) e de 2017 (sobre Zezé Motta, que tem um diálogo com ela) e pelo samba da Unidos da Viradouro de 2016, certamente um dos melhores dos últimos anos. Mesmo derrotado na final, o samba que eles apresentaram na Mangueira para 2017 também merece citação.

A própria forma como me referi às composições de Felipe Filósofo mostra que nem tudo mudou. Isso porque os sambas-enredo continuam sendo disputados por coletivos de autores, que muitas vezes se reúnem em escritórios altamente profissionalizados e chegam a gastar mais de R$100 mil para tentar emplacar um samba-enredo. Isso é fruto de uma lógica iniciada já nos anos 1970, quando os sambas-enredo passaram a serem compostos por especialistas e não mais por aqueles que já compunham outros sambas no restante do ano.

Mesmo que de forma diferente de outros tempos ou dos tempos em que temos sambas-enredos que ficaram eternizados, essa nova safra merece respeito e observação. Eles estão fazendo renascer um dos poucos gêneros musicais épicos.

Confira aqui alguns dos melhores sambas dessa nova safra, além dos já linkados acima:

O Papel e o Mar – Renascer de Jacarepaguá – 2017
O Último dos Profetas – Império da Tijuca – 2017
Versando Nogueira nos Cem Anos do Ritmo que é Nó na Madeira – Acadêmicos do Cubango – 2017
Ossaim: o Poder da Cura – Unidos de Padre Miguel – 2017
As mil e uma noites de uma Mocidade pra lá de Marrakesh – Mocidade Independente – 2017
A virgem dos lábios de mel – Beija-Flor – 2017
Nzara Ndembu – União da Ilha do Governador – 2017
A Ópera dos Malandros – Acadêmicos do Salgueiro – 2016
Maria Bethânia: A menina dos olhos de Oyá – Mangueira – 2016
Do sonho de um caipira, nascem os filhos do Brasil – Imperatriz Leopoldinense – 2016

* Bernardo Pilotto é sociólogo e trabalhador do Hospital de Clínicas, mestre em Saúde Pública pela Unifesp. Nas horas vagas, vai ao samba do Sindicatis.

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