As etapas da produção do carnaval

Compositores tirando dúvidas em carnavais passados.

Por Bernardo Pilotto*

Quando assistimos a um show de música, vemos uma partida de futebol ou mesmo compramos um carro, temos dificuldade de compreender tudo que aconteceu antes daquele momento em que tudo parece pronto e finalizado. Pois bem, num desfile de escola de samba também é assim…

Para que as escolas desfilem naqueles dias de carnaval, há uma preparação anterior intensa e demorada. É possível dizer que, no caso dos desfiles mais elaborados e dos maiores carnavais, não há pausa entre um carnaval e outro.

Neste momento, faltando cerca de 250 dias para o carnaval de 2018, a preparação para o desfile do Rio de Janeiro já está a todo vapor. São muitas etapas e, ao descrevê-las, podemos ter um pouco de noção da grandiosidade que envolve o maior espetáculo da terra.

A primeira parte do processo é a formação da equipe de carnaval, com a escolha do carnavalesco, diretores de harmonia, mestre de bateria, puxadores/intérpretes e demais pessoas que vão coordenar todo o desfile. Muitas vezes, por n fatores, essa formação se dá durante o ano todo, paralelamente às demais etapas.

Com a equipe escolhida (ou parcialmente escolhida), os carnavalescos discutem com a diretoria da escola qual será o enredo para o próximo carnaval. Essa escolha envolve características da escola, vontades do carnavalesco e eventuais patrocínios. Até o momento, várias escolas do Grupo Especial e do Grupo A, como Salgueiro, Grande Rio, Viradouro, Paraíso do Tuiuti, Império da Tijuca, União da Ilha, Unidos de Bangu, Alegria da Zona Sul e Acadêmicos do Sossego, já definiram seus enredos.

Posteriormente à escolha do enredo, normalmente divulgada em uma feijoada da escola ou em alguma data que faça alusão ao enredo (como no caso do enredo do Salgueiro, divulgado no Dia das Mães), os carnavalescos divulgam a sinopse do enredo. É com base nesta sinopse que os compositores irão escrever os sambas-enredo de cada escola. Em muitos casos, tais sinopses são bastante elaboradas, contando inclusive com referências bibliográficas (clique aqui para ver a sinopse da Alegria da Zona Sul e aqui para ver a sinopse do Salgueiro).

A divulgação dos enredos e suas respectivas sinopses normalmente é feita por todas as escolas até meados do mês de junho.

Ainda que a encomenda de um samba pela diretoria da escola esteja se tornando uma tendência (e isso merece um outro texto de análise), o mais comum é que as escolas permitam que os compositores concorram com seu samba. Para isso, algumas escolas promovem reuniões entre o carnavalesco e os compositores para sanar eventuais dúvidas sobre o enredo e a sinopse (clique aqui e veja o calendário da União da Ilha para a escolha do samba).

Esse processo de composição e de formação das parcerias entre os compositores dura mais ou menos até o final do mês de julho. A partir daí, as escolas promovem eliminatórias, que vão afunilando para que se tenha 2 ou 3 sambas que vão para a final, que acontece lá entre os meses de setembro e outubro.

Para a escolha do samba-enredo não há exatamente uma regra. Cada escola tem seu método: escolha pela diretoria, por uma comissão de notáveis, voto direto, etc. Em alguns casos, há ainda a intervenção da diretoria ou do carnavalesco para a junção de dois sambas (e, normalmente, isso não gera um samba de qualidade).

O processo de disputa dos sambas movimenta as escolas, pois as eliminatórias são realizadas com as quadras cheias, em grandes festas, com a presença da bateria, dos compositores, seus apoiadores e tudo mais. Com as facilidades da internet, os sambas concorrentes aparecem não só nos dias de disputa, mas também em vídeos do Youtube, o que faz com alguns já cheguem populares para o momento da escolha.

Após a escolha do samba, há a gravação oficial, que pode ainda ser precedida de eventuais ajustes na letra e/ou na melodia. A partir daí, é força total para que o samba-enredo fure a bolha e torne-se conhecido.

Paralelamente a tudo isso, são confeccionadas as fantasias, alegorias e também são preparadas as coreografias de algumas alas e da comissão de frente.E tudo isso pode ser estragado por uma falha na hora da alegoria fazer a curva e entrar na Marques de Sapucaí ou mesmo caso caia uma chuva.

Como se vê, o carnaval é muito mais que fevereiro, é muito mais que apenas uma festa. E, cada vez que conheço ele mais a fundo, fico mais apaixonado por ele.

*Bernardo Pilotto é sociólogo e trabalhador do Hospital de Clínicas, mestre em Saúde Coletiva pela Unifesp. Nas horas vagas, vai ao samba do Sindicatis. Texto originalmente publicado no Jornal Batucada

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