Breve relato sobre experiência na ocupação da Câmara de Vereadores de Curitiba

*Por Evandro Castagna

Foto: Oruê Brasileiro

Cheguei ao ato, que já cobria a esquina próximo das 9:00. A manifestação foi só crescendo, e quanto mais crescia, mais alto eram as palavras de ordens: “Retira, retira, retira o pacotaço”. Era praticamente impossível não lembrar “29 de Abril” e a “Marcha dos 150 mil” em Brasília. Professoras conversavam com soldados. Dava pra ouvir “Somos nós que cuidamos de seus bebês”.

Fui até o portão principal. Nem deu tempo de chegar e estouraram as cercas. A ação foi rápida e corajosa! Um senhor descia a escadaria ensanguentado carregado pelos seus. Levei dois golpes de cassetetes na cabeça, recuei. Era visível o constrangimento dos soldados. Muitos certamente não queriam estar ali. Ou talvez sim, mas lutando do outro lado. Seriam bem vindos!

Servidores conseguiram abrir, aos pontapés, uma porta de madeira ao meu lado. Por ali entramos na Câmara de Vereadores, passando por cima de cadeiras e mesas deixadas em nosso caminho, certamente de propósito. O tombo foi inevitável. Deste local já dava pra ver vereadores da situação, fugindo de medo dos trabalhadores. Covardes! Só ficaram ali os vereadores que se posicionaram ao lado dos servidores. Eram poucos, mas importantes aliados.

Dentro do plenário da Câmara, desde o início, nos sentíamos seguros e a segurança vinha da presença das representações sindicais e vereadores, mas principalmente da multidão de trabalhadores que se mantiveram coesos e firmes até o momento de nossa saída, cercando a câmara, e exigindo o cancelamento da sessão. Isso de fato nos dava segurança. Não nos bastava a razão.

De repente ouvimos sinais de confronto lá fora, começamos a gritar lá dentro exigindo o cancelamento da sessão e o fim da violência. A solidariedade era recíproca. A indignação era a mesma. Os policiais fecharam as cortinas, não à toa. Éramos parte do mesmo corpo, separados por uma porta, algumas fileiras de policiais, e agora uma cortina.

Um guarda patrimonial estava detido com algemas, isolado em uma sala da câmara. Exigimos sua liberdade e seus direitos mais básicos. Isolaram-nos e proibiram nosso acesso aos banheiros. Trancamos as entradas e as saídas, impedimos a circulação dos policiais e exigimos uma negociação. “Queremos utilizar o banheiro! Libertem o guarda patrimonial ou garantam seus direitos”. Foram retiradas as algemas do guarda. Só conseguimos avançar as negociações depois de improvisarmos nosso banheiro com um lixeiro de plásticos e bandeiras dos sindicatos e centrais.

A Gazeta do Povo cumpriu seu papel, de tão medíocre que é, utilizou-se de uma foto de nosso banheiro improvisado, para mentir novamente. Nenhuma surpresa. Um fotógrafo (Oruê) surge com alguns pães com mortadela no bolso da jaqueta que se multiplicaram. Um alívio para a fome, divido entre muitos.

A informação era instantânea. Alguém gritou: “Absurdo! Saiu na CBN que metade da câmara está depredada. Isso é mentira!” Professoras e demais servidoras comentavam a situação precária das escolas e CEMEIS depois de ouvir lá de dentro a entrevista bizarra de Rafael Greca. “Não faremos mais festa junina pra comprar materiais que o Greca deveria fornecer! Temos que tirar do bolso dinheiro pra comprar papel higiênico para os banheiros!”, “Prendam o Beto Richa”, “Prendam o Greca”, “Cadê o policiamento nas escolas da periferia pra evitar assaltos? Temos que negociar com traficante para garantir segurança!”

Alguns vereadores (as) aliados informaram que a sessão seria cancelada por tempo indeterminado, com o compromisso de ser reaberta somente após segunda-feira. Ninguém confiava nos vereadores da situação. Queríamos o cancelamento da sessão e a retirada do regime de urgência.

O que fazer? As direções dos sindicatos disseram: precisamos aguardar a assembleia. Nela será decidida a continuidade da greve e da ocupação. Aguardamos.

Decisão da Assembleia: a greve suspensa até segunda-feira e a ocupação desfeita por decisão soberana. A assembleia se encerraria após receber os servidores que estavam isolados no plenário da câmara. Ao sair mais confusão! O coronel da PM queria que saíssemos pelas portas dos fundos. Indignação coletiva! “Entramos pela porta da frente, sairemos pela porta da frente”! Alguém gritou: “É briga pra entrar, é briga pra sair!”. Cederam.

Saímos pela porta da frente, recepcionados por uma multidão de trabalhadores em um uníssimo coro: “Retira, retira, retira o pacotaço!”. Enfim o corpo se reunifica. A sensação foi a mesma de reencontrar um familiar ou amigo distante. Foi uma festa! Foi emocionante. Saímos desta luta com uma vitória imensa, imensurável! Os servidores tiveram a oportunidade de, pela segunda vez (segunda ocupação) fazer uma experiência com o regime democrático burguês, com o parlamento podre e imprestável para os trabalhadores.

Foi provado, através da experiência prática, que o prefeito e os vereadores, salvo poucas exceções valorosas, são meros capachos dos ricos e poderosos da cidade, e não medem esforços para jogar nas costas dos mais pobres o custo da crise econômica. Que esta democracia não é nossa, que não serve pra nós. Que as forças armadas estão a serviço desses mesmos ricos e poderosos.

Que não basta ter razão, precisamos de maioria, de número, de quantidade, de multidão. Que precisamos de táticas de defesa e enfrentamento, de organização. Que nós, trabalhadores, podemos contar somente com nossas próprias forças!

*Evandro Castagna é assistente administrativo na Universidade Federal do Paraná.

Texto originalmente publicado no Facebook e reproduzido com permissão do autor.

Comentários

    Belmira Garcia de Morais

    (27 de junho de 2017 - 08:29)

    Juntos somos mais fortes, porquê tolerar todos os abusos destes governos facínora?

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