Samurais e cowboys

Para Kurosawa

Luiz Belmiro

Meu gatilho é mais rápido do que sua espada. Toshiro e Eastwood. Esta cidade é pequena demais para nós dois. Cara ou coroa. Nossas vidas não valem um dólar furado. Almondegas e spaghetti. Whisky quente não mata a sede. Estes duelos ao meio dia tiram o meu apetite. Não pergunte meu nome e não colocarei sua honra em dúvida. Ronins e pistoleiros de aluguel. Perdemos o último trem para o leste, agora não podemos mais fugir desta vida seca e amaldiçoada. Lobos e cascavéis. Roubaram meu cavalo na última cidade antes do inferno. Desde então ando a pé queimando minha pele, pois o sol nunca se põe no oeste. Não tivemos de escolher entre a vingança e a justiça, pois os mortos nem sabem a diferença. Viúvas e prostitutas. Um punhado de dólares por uma noite de amor barato. Pedimos aos padres para rezarem por nossas almas e às freiras para criarem os órfãos. Nossas lendas sujam de tinta o papel jornal. A agilidade de um ninja silencioso de nada vale contra uma metralhadora giratória. Poemas escritos na vertical e corpos enterrados na horizontal. Coringas e valetes. Nossa sorte depende das estações do ano. Éramos sete mas o nosso destino estava traçado e nossos caixões foram feitos sob medida. Sobramos apenas três: the good, the bad e o terceiro homem feio e sujo. Por uns dólares a mais o terceiro pagou por essa dança da morte. A flor de lótus e o espinho do cactos. Um velho maestro conduziu nossa rapsódia em agosto. Sou melhor de improviso pois sempre tive sorte para matar gente. Os seus movimentos são clássicos mas imprevisíveis. Antes de começarmos apaguei o charuto na sola da minha bota. Sangue e suor. Eu deixarei como herança o som do meu velho violão, tudo que você tem é apenas ódio para deixar.

Luiz Belmiro Autor

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