Lady catástrofe

Sempre me apaixono em dias de chuva. Pode ser homem, mulher ou cachorro. O trovão, o relâmpago, o temporal. Aquele barulhinho e a preguiça me tornam presa fácil para qualquer olhar ou sorriso. Como não tenho vontade de sair da cama preciso encontrar algo que fazer debaixo das cobertas. Filmes com legenda. Presentes de luxuria. Uma vez me ofereceram um milhão, outra um terreno na lua. Já que nunca te interessou saber vou contar minha história. Enquanto meus irmãos conheceram o mundo eu fiquei aqui, sendo vigiada pelo tempo. Disseram que eu precisava dele para aprender. Ele me ensinou a tocar guitarra, mas não pode me ensinar a esquecer. Tomei péssimas decisões aconselhada pelo desespero. Nunca carrego guarda-chuva na mochila. A esperança me disse que o amor precisa de paciência e doses cavalares de açúcar e poesia. Essa ansiedade e o meu desejo são demais para uma estrofe ou um soneto. Decidiram por mim que estava na hora de crescer. Como não sei ficar sozinha corri atrás do tempo indo não sei onde. Ainda precisava dele para curar minhas feridas. Fiquei aqui sangrando. Um metrônomo marcava minhas horas. Choveu demais ano passado. Num dia de sol nos conhecemos. Percebi que algo estava errado. Meus golpes precisos de kung fu, suas palavras certeiras de despedida. A cicatriz em seu peito, aquela dor que sinto nas pernas. O quarto de cabeça para baixo, a cama arrumada esperando a raiva passar. Me assistiu queimar. A fênix, achei que poderia renascer das cinzas, tudo que posso é ressuscitar corações despedaçados. Hoje cavalgo um dragão de sete cabeças, uma para cada sentimento da nossa irmandade: solidão, ousadia, timidez, pavor, ira, egoísmo, o perdão. Danço ciranda em meio à tormenta, torço pelo furacão das Américas. Eu, vestida de neon. Minha espada corta o nevoeiro e abre o caminho para as pessoas irem embora da minha vida. Menos você. Quando quiser me encontrar estarei aqui, não precisa mandar e-mail ou telefonar, apenas bata na porta. Desafie a realidade e me peça em casamento. Se puder me reconhecer no meio da tempestade. O tempo ainda olha por mim, apenas ele pode entender um grande amor. Preparei a mesa, omelete, caldo de galinha, filé com fritas, lagosta, limonada e farofa. Agora que suas vidas estão salvas meus irmãos podem voltar para casa e eu conseguirei falar com meus pais. Só aprendi a perdoar quando aprendi a te pedir perdão.

Luiz Belmiro Autor

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