Educação sexual e ideologia de gênero

*Por Alexandre Dittrich

Ontem à noite provei uma dose cavalar do proverbial conservadorismo curitibano, em um contexto no qual era bastante previsível que ele emergiria.

No colégio onde estuda nosso filho de 12 anos, assisti a uma palestra da especialista que ministrará aulas de educação sexual para os pré-adolescentes. Ela veio explicar aos pais como será o seu trabalho – quais temas serão tratados, de que forma, etc. O que aconteceu lá me impressionou muito, mas no fim foi importante para mim, e talvez seja importante para outras pessoas – por isso compartilho aqui.

A abordagem da especialista me pareceu bastante razoável, e adequada para pré-adolescentes. Em uma palestra curta, ela foi elencando os temas que abordaria: as transformações do corpo e dos hormônios, os cuidados de higiene, a importância de prevenir doenças ou uma gravidez indesejada, de lidar com os desejos emergentes… e a questão da orientação sexual. O básico do básico: nascemos com corpos masculinos ou femininos, mas isso não significa necessariamente que desejaremos pessoas do sexo oposto. E não devemos julgar as pessoas por sua orientação sexual.

Pronto, foi o que bastou para que um pai na primeira fila interrompesse a palestra e pedisse a palavra.

Ele falou. Bastante, umas três ou quatro vezes. Resumo rápido do que ele disse: a escola não deveria ensinar “ideologia de gênero”. Há muita coisa ruim por aí, esse tipo de assunto é privado, deveria ser tratado em casa. Os pais são clientes da escola, portanto podem escolher se esse “produto” é adequado ou não para seus filhos.

A professora ficou meio na defensiva – até demais pro meu gosto: a questão da orientação sexual seria tratada em “apenas três minutos”, e ela repetiu o que já havia dito: trata-se apenas de reconhecer o fato de que diferentes orientações sexuais existem, e que elas não deveriam ser motivo para julgar moralmente as pessoas. (Ela se restringiu ao trinômio hetero/homo/bi, que creio inclusive ser meio limitado hoje em dia.)

Não bastou. O pai falou de novo: esse assunto não deveria ser tratado na escola. Lá no fundo uma mãe levantou e prestou apoio ao pai. Ela lembrou que o livro-texto de Filosofia da escola também mencionava a questão da orientação sexual, e ela achava isso “inadequado”. O filho dela poderia ler aquilo e achar que poderia ser o que bem quisesse! Por fim, outra mãe pediu a palavra e disse que criava seus filhos de acordo com a Bíblia. Há várias religiões cristãs, disse ela, mas a verdade da Bíblia é uma só – portanto ela se reservava o direito de não permitir que seu filho assistisse àquelas aulas.

Eu não estava acreditando. Não havia ninguém para defender algo diferente disso?

Depois daquele primeiro pai defender pela quarta vez seu direito de consumidor e propor uma votação para decidir se a professora deveria falar sobre orientação sexual ou não, eu, que não sou a pessoa mais extrovertida do mundo, achei que já era demais. Pedi o microfone.

Falei que não conseguia ver aonde estava o problema em (1) afirmar o fato óbvio de que existem pessoas com diferentes orientações sexuais (qualquer criança de 12 anos certamente sabe disso); (2) ensinar claramente aos nossos filhos que o valor de uma pessoa independe de sua orientação sexual. Por fim, lembrei que, estando certas as estatísticas apresentadas pela própria especialista, pelo menos 10% dos pais presentes naquela sala provavelmente eram homossexuais. Estaria o cara da primeira fila propondo ser errado ensinar aos nossos filhos que esses pais merecem o mesmo respeito devido a todos os demais que ali estavam? O que teriam os pais homossexuais a dizer como “clientes”?

Houve aplausos, pela primeira vez. Foi um alívio pra mim, mas eu já havia percebido que alguns pais estavam desconfortáveis com a situação. Aquilo foi a senha para que outras mães (só mães, nenhum pai) elogiassem a proposta da professora e se posicionassem “contra qualquer tipo de preconceito”. Há esperanças, afinal.

No fim, garantiu-se que os filhos cujos pais não concedessem autorização não assistiriam às aulas. Ok, acho razoável. Não acho que se deva obrigar os pais a aceitar qualquer coisa. Mas lamento pelos filhos, que serão privados de uma série de informações importantes porque seus pais acham que eles não podem ouvir por três minutos que não há problema em ser homossexual ou bissexual.

Saí de lá meio atordoado com a coisa toda. Depois, refletindo sobre o que vi e ouvi, cheguei a algumas conclusões.

Lembro claramente que aquele primeiro pai, o que falou mais, começou sua fala dizendo que “não tinha preconceito”, etc. Bem, o cara não aceita que a simples existência de homossexuais seja mencionada para seu filho. Será que exagero ao pensar que isso é preconceito? É fácil perceber porque tanta gente fica com um pé atrás quando as pessoas começam falando que “não têm preconceito”. Normalmente isso é uma preparação para destilá-lo.

Em benefício daqueles pais, acho que é possível creditar parte das reações deles à simples falta de informação científica. Foi possível perceber um medo pervasivo, quase paranóico de que os filhos deles pudessem ser minimamente influenciados a “virar” homossexuais. A especialista tentou explicar que mesmo que ela tivesse a intenção de alterar a orientação sexual das crianças (o que obviamente ela não tem) isso não produziria nenhum efeito. Mas é difícil convencer os pais disso.

Pode-se argumentar, é claro, que o simples fato de esses pais não quererem que seus filhos sejam homossexuais já demonstra preconceito. Eu concordo, mas também acho que o direito de eles educarem seus filhos como bem entenderem deve ser assegurado. É a única forma de garantir que ninguém tentará, inversamente, impor a mim a forma como devo educar meus filhos. Me reservo, porém, o direito de afirmar publicamente que discordo da escolha desses pais. Acho que ela pode causar prejuízos sérios a seus filhos (em especial se eles forem homossexuais), além de fomentar o preconceito que eles dizem não ter.

Seria possível discutir longamente a influência das religiões nesse contexto. É um tema complexo, mas realmente não acho que o problema esteja na Bíblia, porque você pode usá-la para justificar o que quiser – desde o amor incondicional aos homossexuais até o seu extermínio completo da face da terra. Há muitas pesquisas apontando que a formação moral das pessoas se deve a vários fatores para além das religiões e seus livros sagrados. No mais das vezes a religião de cada um serve antes para justificar padrões de comportamento já existentes.

Como analista do comportamento, sempre tento seguir o conselho de Spinoza: me esforço para “não rir das ações humanas, não deplorá-las nem odiá-las, mas entendê-las”. O ódio é sempre a reação mais fácil em relação ao comportamento alheio, e invariavelmente também a mais deletéria. Então não estou aqui tripudiando daqueles pais, nem me colocando como paladino da moral. Minha profissão me dá cotidianamente incontáveis oportunidades de refletir sobre o preconceito, de reconhecê-lo em mim mesmo e de tentar mudar. Nem todos têm essa oportunidade, e portanto não se trata de culpar ninguém. Nós precisamos criar um ambiente cultural no qual essas oportunidades sejam abundantes para todos – especialmente fora da academia.

A transformação cultural que vejo necessária pode se dar em várias frentes, mas eu gostaria de mencionar um exemplo que tenho observado aqui em Curitiba já há algum tempo. Cada vez mais tenho visto casais do mesmo sexo andando pela cidade de mãos dadas – gente de todas as idades, não só a molecada. É curioso pensar que esse gesto simples de carinho também seja, para esses casais, um gesto de coragem, resistência e afirmação. E é bonito pensar que a política possa ser feita desse jeito: tornando cotidiano o que é cotidiano, naturalizando o amor. É uma forma gentil de confrontar a intolerância. É convivendo com o estranho – com o “estrangeiro” – que aprendemos a comunidade da condição humana. Podemos também um dia oferecer ao estranho nossa mão.

Eu sempre fui um otimista, e acho sinceramente que daqui a algumas décadas esse tipo de discussão estará superada. A molecada de hoje, em sua maioria, percebe claramente que não faz sentido discriminar as pessoas pelo fato de desejarem quem desejam. Mas isso não quer dizer que se deva esmorecer, ou dar alguns avanços como certos. Fatos recentes no Brasil e no mundo evidenciam a recrudescência do preconceito. Os tais protestos pela “supremacia branca” são o exemplo mais evidente. Pode-se argumentar que proporcionalmente são poucas as pessoas que defendem barbaridades desse tipo, mas os preconceitos podem se esconder sob uma gama mais ampla do espectro político, não necessariamente vista como “radical”. Poucas pessoas admitem abertamente seu preconceito ou vão às ruas exibi-lo, mas estou certo de que, secretamente, no recesso de seus lares e de seus pensamentos, muitos se satisfazem com tais demonstrações. E também acho que é perfeitamente possível que uma pessoa pense sinceramente que “não é preconceitosa” – mas… (Sequer me eximo disso.)

Pessoalmente, tenho um milhão de dúvidas sobre os melhores caminhos na política e na economia, mas uma coisa pra mim sempre foi muito clara: o ódio e o preconceito motivados por qualquer característica relativa a cor, etnia, origem, religião, nível de renda e orientação sexual são inaceitáveis.

No fim, sou grato aos pais presentes àquela palestra – em especial aqueles que buscaram preservar seu direito de ensinar preconceito na privacidade de seus lares. Eles me chacoalharam, me fizeram acordar de uma certa letargia na qual é muito fácil cair: a de achar que uma luta talvez não seja lá tão importante porque ela não é propriamente “sua”, porque você não é diretamente afetado por ela. Ao seu próprio modo, aqueles pais me mostraram novamente o caminho que devo seguir, e o quanto ainda há por se fazer para que todos possam ser felizes simplesmente sendo o que são.

 

Texto originalmente publicado no Facebook e reproduzido aqui com permissão do autor.

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