Frente de Esquerda e eleições de 2017 na Argentina: uma mirada desde o Brasil

*Por Edmar Almeida de Macedo

No último dia 13 de agosto realizaram-se na Argentina as eleições primárias para senadores e deputados. Estas eleições prévias servem para os partidos dirimirem disputas internas e para a aplicação de uma cláusula de barreira de 1,5% que deixa de fora das eleições parlamentares de outubro quem não a superar. No entanto, as eleições de outubro renovam apenas metade do congresso argentino, cuja outra metade só coloca em disputa suas cadeiras junto com as eleições presidenciais, daqui a dois anos.

Os grandes atores da disputa eleitoral deste ano são basicamente cinco: a coalizão “Cambiemos” liderada pelo presidente Maurício Macri, o Kirchnerismo, no campo peronista, agrupado na coalização “Unidade Ciudadana” liderada pela ex-presidente Cristina Kirshner, o Partido Justicialista, tradicional representante do peronismo, e mais uma coalizão, no campo do peronismo, mas dissidente do Kirchnerismo, chamada “1 País”(1P), liderada por Sérgio Massa. Corre por fora ainda a esquerda argentina, cuja maior coalização é a Frente de Izquierda e de los Trabajadores (FIT).

Do ponto de vista discursivo a aliança governista pediu votos para continuar a mudança que vem fazendo no país, enquanto os Kirchneristas de Cristina pediam o voto dos eleitores para impedir que o país continue piorando, em especial as altas dos preços administrados pelo governo e a falta de atenção aos mais pobres. A coalizão de Massa (1P) também foi para as eleições com um discurso crítico ao governo, mas apelando contra a polarização e pregando o entendimento.

Mas quero chamar a atenção aqui para a esquerda argentina. Nas eleições a FIT fez campanha advertindo que para enfrentar o ajuste de Macri não era possível votar no kirchnerismo, devendo o eleitor depositar seu voto na oposição mais consequente, a própria Frente de Esquerda. Faziam parte de suas propostas ainda a redução da jornada de trabalho e a equiparação do salário dos parlamentares aos dos professores. Imagens dos candidatos a deputados em passeatas, ocupações de fábricas e enfrentamentos com a polícia eram repetidas na propaganda televisiva.

A Frente de Esquerda foi formada na Argentina em 2011 com a participação de três partidos: o Partido Obrero (que no passado teve como correspondente no Brasil o Partido da Causa Operária, antes de sua virada lulista), o Partido Socialista de los Trabajadores (cujo correspondente no Brasil é o Movimento Revolucionários dos Trabalhadores, implantado principalmente em São Paulo e que luta para ser aceito no PSOL) e a Izquierda Socialista (cujo correspondente no Brasil é a Corrente Socialista dos Trabalhadores, um dos grupos mais a esquerda do PSOL).  Ou seja, trata-se de uma coalizão de partidos trotskistas (e diga-se de passagem, dos setores mais radicais do trotskismo) e que logra um desempenho razoável nas eleições, sendo a grande força da esquerda argentina, possuindo hoje 4 deputados federais.  Levando em conta o tamanho do Congresso Nacional brasileiro seria como ter em Brasília 8 trotskistas como deputados federais.

Outros grupos e partidos menores tem composto a FIT em um momento ou outro, de modo mais ou menos permanente, mas seus três sócios fundadores continuam controlando a Frente, que aparentemente não está aberta a toda a esquerda, nem mesmo a todos os trotskistas. Por conta disto nesta eleição formou-se outra frente, a “Izquierda al Frente por el Socialismo”(IFS), contando basicamente com o Movimiento Socialista de los Trabajadores (cujo correspondente no Brasil é o Movimento de Esquerda Socialista, corrente do PSOL liderada por Luciana Genro) e o Movimiento al Socialismo – Nueva Izquierda (cujo correspondente no Brasil é a pequena “Socialismo ou Barbárie”, outra corrente do PSOL), e esta frente afirma com todas as letras que só existe por que não foram aceitos na FIT, que é onde gostariam de estar.

O resultado das primárias de domingo foi: vitória mais ou menos incontestável da coalizão governista “Cambiemos” por quase todo o país; Cristina Kirchner ficou em uma situação de empate na disputa pelo senado na Província de Buenos Aires (quando esperava ganhar com relativa folga), mantendo o kirchnerismo vivo, mas menos competitivo do que gostaria; desempenho pífio da coalizão de Sérgio Massa e sua campanha contra a polarização eleitoral, e uma surpreendente sobrevivência do Partido Justicialista, em que pese o desempenho modesto. As projeções dos jornais argentinos afirmam que se o mesmo padrão de votação se repetir em outubro a coalizão governista será composta de 104 deputados em 257, ou seja, mesmo tendo o melhor desempenho eleitoral e a maior bancada entre os concorrentes ainda assim estará longe de constituir maioria parlamentar absoluta, precisando negociar com as outras forças para aprovar seus projetos, que por ordem de tamanho tendem a ser, da maior para a menor, o Kirchnerismo (Unidade Ciudadana), o Partido Justicialista, a coalizão de Sérgio Massa (1 País) e a esquerda (FIT). Não deixa de chamar a atenção aqui a diferença em relação ao parlamento do Brasil quando vemos que no parlamento argentino existem, grosso modo, apenas cinco campos políticos.

Para a esquerda, do ponto de vista eleitoral, nada está garantido ainda. A FIT logrou superar a barreira dos 1,5% em todos os lugares que concorreu e está bem próxima de eleger um deputado pela Província de Buenos Aires e outro pela Cidade de Buenos Aires. No entanto nesta eleição 3 de suas 4 cadeiras estão em jogo. Um aumento da votação da FIT é esperado entre as primárias e as gerais de outubro, pois assim tem acontecido em todas as eleições e deste aumento pode resultar a consolidação destas duas possibilidades e um terceiro deputado por alguma província interiorana ou mesmo mais um na Província de Buenos Aires. A votação alcançada pela FIT nestas primárias, de quase um milhão de votos em todo o país, é a maior já conseguida em sua história, mas ainda assim só um pouco maior do que a de 2013, quando fez aproximadamente 900 mil votos. As projeções da imprensa falam na possibilidade de passar a marca de 1.300.000 votos em outubro, cravando um novo recorde, mas também apenas um pouco maior que em 2013. Já a IFS, a outra coalizão de esquerda, logrou resultados mais modestos, passando a barreira prescritiva em algumas províncias do interior, mas falhando nas duas mais importantes praças eleitorais, a Província de Buenos Aires e a Cidade de Buenos Aires. O provável é que não eleja ninguém em outubro.

Muito se tem discutido na esquerda brasileira, em parte em razão da experiência argentina, a formação de uma Frente de Esquerda por aqui. Mas é preciso estar atento as diferenças de cenário: não existe na Argentina algo nem parecido com o PT e o com PSOL, e quando se fala em uma frente de esquerda composta por PSOL, PSTU, PCB e outras organizações sem legalidade partidária, está se discutindo algo bem diferente do que ocorre por lá, em que a esquerda é capitaneada pelo trotskismo que já disputa abertamente as eleições há muito tempo com cara própria (e com algum sucesso nos últimos anos) e onde existe uma vontade generalizada de unidade na esquerda.

Mas claro que construir aqui algo de natureza diferente também pode ser uma aposta com bons frutos na tarefa que parte da esquerda se põe, de superar o lulismo pela esquerda, inclusive fazendo da conquista de espaço parlamentar uma alavanca para isto.

*Técnico em Assuntos Educacionais na UFPR onde também se graduou em História, fez o mestrado em Sociologia e faz o doutorado em Ciência Política, ou seja, a vida dele é lá. Discute política no café da manhã, formação de professores no almoço, multiculturalismo no jantar e as vezes isso dá briga.

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