Lições dos pacientes para os médicos

*Por Natália T. Henke

Cinco coisas que aprendi com meus pacientes até o momento:

1. Muitas vezes o porquê da busca pelo atendimento médico em um determinado momento importa tanto quanto ou mais do que o motivo de saúde ou doença em si. Às vezes uma dor de estômago bobinha e sem muita importância pode se transformar em algo assustador quando um vizinho falece por câncer de estômago. E isso você só descobre se ouvir mais do que falar. Outras vezes as pessoas chegam até nós, médicos e demais profissionais da saúde, num estado de saúde tão deplorável que nos questionamos: Como foi que chegou a esse ponto? E se fizermos essa pergunta sem qualquer tipo de julgamento, talvez a gente ouça coisas como: Eu saio de casa para trabalhar às cinco e meia da manhã e chego de volta quase nove horas da noite, não posso faltar, meu patrão não entende e desconta o dia do salário. O mesmo se aplica às faltas em consultas agendadas.

2. Quando um paciente diz que tem “diabetes emocional” não o minimize, muito menos ridicularize-o. Não diga que “esse papo de diabetes emocional não existe”. Mesmo que todos os exames apontem pra uma doença sem controle há anos. Quando uma pessoa CITA qualquer aspecto emocional relacionado ao seu estado de saúde, escute-o. Ele com certeza está passando por algum tipo de sofrimento psíquico e quer falar sobre isso. Escute e mostre que se importe. E se importe de verdade. Essa é a melhor forma pra construir um bom relacionamento que permita o alívio do sofrimento e até mesmo o controle da diabetes.

3. Cada um sabe, de acordo com toda sua bagagem de vida (tão própria e tão única) o que é melhor pra si. Não sejamos violentos ao tentarmos impor determinado estilo de vida pra quem quer que seja. Forneça informações, tire dúvidas, mas deixe que cada um decida por si mesmo o que é o melhor a ser feito. Ninguém é tão especialista em alguém quanto a própria pessoa. Se o seu paciente de 83 anos diabético descompensado, hipertenso descontrolado e com valores de colesterol e triglicérides elevadíssimos diz que quer continuar comendo fritura e carne de porco todos os dias porque diz que já viveu muito e agora quer apenas ser feliz e ter prazer, engula seco todas as diretrizes e todos os protocolos e aceite. No final das contas, o que importa é o aqui e o agora. Sobretudo quando vidas muita sofridas se aproximam do fim.

4. Confie na sua intuição, no seu feeling, no seu tato, basicamente em tudo que você apreende de um encontro de forma grosseira ou sutil. Sabe quando algo bem lá dentro de você diz que tem algo errado em determinada situação ou com determinada pessoa? Confie. Provavelmente existe mesmo algo errado ali. Talvez aquela neta que você julgou desnaturada numa visita domiciliar a um idoso acamado pós AVC apareça no seu consultório menos de um mês depois da visita com um quadro depressivo importante porque contou pros pais que é lésbica e não só foi ameaçada de ser expulsa de casa como tomou uma surra do próprio pai.

5. Confie no vínculo. Acredite no poder de uma “simples” escuta. Entenda que esse mundo produz toneladas de sofrimentos e sofredores e que os pacientes têm mesmo insuficiência cardíaca, hepatite C, esquizofrenia, tuberculose, HIV, asma, epilepsia e artrose. Mas entenda também que uma mente doente adoece o corpo também. Sabe aquela mulher que não te olha nos olhos durante toda a consulta? Que é a personificação do desânimo? Ofereça um abraço ao final da consulta. Você pode se surpreender quando ela responder: Claro! É o que eu mais preciso! E ficar ainda mais surpresa quando, após as despedidas, ela voltar correndo pelo corredor para te dar mais um abraço.

*Médica residente em medicina da família e comunidade.

Texto originalmente publicado no Facebook e reproduzido aqui com permissão da autora.

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