A importância de uma Miss Brasil negra

*Por Karen  Morais dos Santos

É importante para a sociedade brasileira mais uma Miss Brasil negra? De bate pronto penso que contribuiu, ao mesmo tempo que atrapalha, como também não faz diferença alguma pra boa parte do povo hehe. Respondo desse jeito, que pode parecer meio tosco, pra poder argumentar com o contraditório, a realidade é complexa desse jeito. Tipo, ver mulheres negras acendendo em espaços que historicamente foram direcionados aos homens e mulheres brancas no primeiro momento é importante, sem pensar mt me deixa feliz, mas refletindo um pouco mais é preocupante pela anestesia que significa. Estamos vivendo num país racista e elitista afundando cada vez mais numa crise geral, porém a Miss Brasil é negra. Por 1 minuto comemoramos, como o milésimo gol de Pelé em meio a ditadura. É óbvio que nada do que acontece nesses concursos depende mto das nossas reflexões, mas no marco do que defendemos das lutas contra o racismo estrutural, temos que questionar sobre TUDO que querem que saibamos, o que produzem de informação, o que a elite ‘dá de aceno’ para a negrada. Acredito que a importância de novamente termos uma miss negra se dá no marco da representatividade, no combate ao racismo na conduta, no discurso sobre a realidade. Num país com mais de 50% da população que se autodeclara negra, a representação do povo brasileiro sempre foi europeizada. Por outro lado atrapalha, e muito, porque legitima esses espaços, e que por mais boa vontade dos negros e negras que o ocupam, são sempre espaços que reproduzem a lógica segregacionista, de transformar tudo em mercadoria para quem consegue consumir, que se apropria de símbolos da cultura que resiste, e transforma em algo fetichizado (como o debate sobre a ‘mulata – produto nacional’, chegando até a globeleza). Não depende de nós essa lógica, e precisamos sobreviver, que é diferente de se integrar e defender. Não há resistência sem crítica, por isso não defendo a ‘ocupação de espaços’, de forma individualizada e sem estratégia política, como a principal bandeira nossa, de quem luta contra o racismo. Sempre tem quem queira fazer a diferença dentro dos espaços públicos e privados, mas tbm é um desafio inglório. Se a negrada não entender que são espaços de dominação, das ideias do povo inclusive, que podemos e devemos sim fazer bons trabalhos, porém não é a soma dos bons trabalhos que mudam a estrutura dessa sociedade, continuaremos andando em círculos. Almejar melhorar de vida todos querem, e não é errado, porém o que defendemos de verdade? Se integrar de forma subordinada? e o povo negro? Sempre haverá essa possibilidade , desde a época da escravidão havia os pretos da casa, mas hoje, com todas as experiências acumuladas sobre o que representou as traições e cooptações, vale a pena?!

*Professora da rede estadual do Rio Grande do Sul em Porto Alegre, coletivo alicerce, vereadora suplente do PSOL em Porto Alegre.

Texto originalmente publicado no Facebook e reproduzido aqui com permissão da autora.

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