Desobedecer para pacificar

*Por Marcello Bertolo

Internacionalmente, existe uma tendência geral na música que é a utilização de notas agulhadas, estridentes, que favoreçam cantores de maior extensão vocal. Essa tendência tem se refletido também no samba-enredo. A exemplo do que ocorre no sertanejo universitário e na música pop atual, isso ocasiona uma tendência de “pasteurização”, o que provoca a sensação de que os sambas são todos muito parecidos, por recorrerem frequentemente aos mesmos recursos melódicos. Nesse contexto, de valorização da estridência nas melodias, as soluções de letra em geral também perdem criatividade, com uso de muitos clichês, teores apelativos e repetitivos de exaltação das agremiações, uso de palavras batidas, trocadilhos, duplos sentidos forçosos e assim por diante. Esses aspectos nos remetem a lembrar que grandes obras do passado sequer citavam o nome da escola. A identificação da agremiação era pelas características do samba e da percussão que o acompanhava.

A lógica das composições dos sambas-enredo encontra-se hoje numa espécie de limbo entre a popularização e a segmentação. As tentativas de fazer sambas com maior apelo popular acabam descambando para a falta de qualidade, pobreza poética, para os clichês melódicos e apelativos, sendo o mais comum deles o “pergunta e resposta”. Por outro lado, a busca por sambas mais sofisticados, melódicos, com letras densas nos dão a sensação de afastamento de toda uma massa contaminada pela lógica da indústria cultural. Em um cenário como esses, o samba-enredo encontra-se na encruzilhada, entre tentar atrair o público geral ou atender o público especializado.

No meio de um sem número de obras imersas na pasteurização, surgem – especialmente nesta década – sambas que conseguem se sobressair e fugir desses padrões. Esta tem sido uma década de grandes sambas, de algum resgate, especialmente a partir dos sambas da Portela e da Vila do ano de 2012, seguidos por Vila em 2013, Salgueiro em 2014, Imperatriz em 2015, Portela e Viradouro em 2016, Beija-Flor e Mocidade em 2017 e novamente em 2018. Estas obras foram marcadas pela inovação, pela fuga do lugar comum, e contagiaram sambistas de todo o país, gerando furor e clamor. Toninho Nascimento e Luiz Carlos Máximo nos abriram essa porta.

O que esses sambas, que arrastaram um caminhão de seguidores, nos mostram? Eles nos dizem que o caminho do samba-enredo é formar o seu próprio público e o de seus arredores, atender cada vez melhor seu próprio nicho, de forma segmentada, valorizando a qualidade. Diferente do sertanejo universitário e da música pop, a pasteurização do samba-enredo não trouxe qualquer perspectiva de massificação, daí esta não parece ser uma boa solução. Não acho que a mera massificação nas mídias tradicionais, na TV e no rádio, traria o samba-enredo de volta a uma posição mais protagonista. Mais que tocar na rádio e na TV, os sambas-enredo atuais precisam ser executados nas rodas de samba, precisam apaixonar um público potencial enorme que está distante.

Em geral, todos os grandes sambas recentes têm em comum a fuga da pasteurização e da estridência, a criatividade nas letras fugindo da obviedade. Em alguns casos isso teve relação, inclusive, com a aparição de compositores de fora do ambiente do samba-enredo, portanto menos contaminados pela lógica vigente, mais desgarrados dos padrões convencionados, que bebem em outras fontes. Boa parte desses sambas foram por um lado aclamados e por outro sofreram a desconfiança de se era possível desfilar com eles ou se os mesmos atendiam a sinopse, o que sugere uma certa acomodação, uma preguiça em trabalhar com o novo.

A sequência de vitórias da parceria de Altay Veloso e Paulo César Feital na Mocidade nos traz uma nova perspectiva. São sambas que fogem à setorização inicialmente proposta e ao excessivo rigor em abranger a sinopse. São obras que contam o enredo, sem o grau de “tecnicismo” da esmagadora maioria dos sambas-enredo atuais, com inúmeras licenças poéticas, acréscimos de novos elementos, releituras e melodias que pouco ou nada se importam com as convenções estabelecidas nos últimos tempos. O regulamento do quesito samba-enredo permite isso. A Mocidade, inclusive, foi campeã dessa forma, depois de muitos anos em posições inferiores. Nesse contexto insiro também a trilogia da minha parceria na Sossego, com sambas fora da zona de conforto em letra e melodia: sem rima, em forma de diálogo e agora sem verbo. A escola foi campeã do Grupo B, subiu e permaneceu com boa margem na Grupo A.

O caminho me parece estar aí: atender e ampliar o público que lota as quadras, os ensaios técnicos e viraliza os sambas nas redes sociais com obras de qualidade, que consigam fugir do óbvio, absorvam elementos de outras fontes, tanto em letra quanto em melodia. Para tanto, precisamos que as direções de escola, carnavalescos e equipes de carnaval estejam abertos a essas hipóteses, abram mão do excessivo rigor da setorização, do samba como uma espécie de cópia fiel da sinopse, das fantasias e alas.

Samba-enredo não é jingle. No caso do desfile, o samba deveria estar mais para uma trilha sonora de um filme. A canção não precisa entregar de bandeja tudo que vai passar na avenida. Que os novos ventos soprem cada vez mais forte. A mordaça foi tirada, é preciso “desobedecer pra pacificar”, como um dia fez a Mocidade, a Portela a partir de 2012, a Viradouro em 2016, a Sossego nos últimos três anos, como fez a Beija-Flor no ano passado, e por aí vamos… Em tempos de Crivella, é preciso resistir e também é preciso inovar.

*Compositor

Texto publicado originalmente no Facebook e reproduzido com permissão do autor.

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