*Por Clóvis Gruner

Lula deu anistia ampla, geral e irrestrita aos “golpistas”, e já não falta quem justifique a nova guinada do PT, que afinal não foi mesmo à esquerda, usando principalmente dois argumentos. O primeiro, que a esquerda não petista nunca esteve disposta a uma aliança com o PT; o segundo, que frente ao quadro que se desenha para o próximo ano, ele ainda é a nossa alternativa menos pior.

Primeiro, não me parece que seja a esquerda não petista quem esteve pouco disposta a alianças com o PT, mas antes o contrário: o PT nunca fez um gesto, por tímido que fosse, pra se aproximar dela, e desde que esteve no governo praticamente desqualificou toda e qualquer pauta progressista, notadamente no governo e meio de Dilma Rousseff.

A indiferença do partido para com a esquerda continuou depois do impeachment. Qual o primeiro gesto do PT depois da deposição de Dilma? Votar em Rodrigo Maia para a presidência da Câmara (http://bbc.in/2iyfZ7T). No começo desse ano, sob a alegação de que era importante garantir um lugar na mesa diretora da casa (http://bit.ly/2kSiPrJ), desprezou qualquer possibilidade de apoiar a candidatura de Luíza Erundina.

Nas eleições municipais de 2016, o PSOL tinha chances reais de disputar duas capitais, Rio e Porto Alegre. O PT preferiu lançar a candidatura, inviável, de Jandira Feghali no Rio (http://bit.ly/2kSiPrJ), e desprezou qualquer alternativa de aliança com Luciana Genro em PoA, optando pela candidatura isolada e envergonhada de Raul Pont (http://bit.ly/2hfnjsr).

Dito de outro modo, a esquerda foi importante, fundamental ao PT, quando o partido precisou dela para ecoar o discurso do “golpe”. Agora que não precisa mais, nem da esquerda, nem denunciar o “golpe”, volta ao lugar de onde, na verdade, nunca saiu. Previsível, mas nem por isso menos estratégico, e chegamos ao segundo argumento.

O PT sempre soube que teria uma militância e eleitores também previsíveis, dispostos a justificar de qualquer forma uma aproximação e alianças com os “golpistas”, que é com quem ele governou e, se eleito, voltará a governar.

Há gente decepcionada, um tanto e quanto angustiada, mas a alegação, frente às ameaças representadas pela candidatura de um Doria ou, pior, um Jair Bolsonaro, é que o PT, principalmente se for com Lula, mesmo com os “golpistas”, ainda é nossa melhor alternativa, é “o que temos pra hoje”.

O que é preciso discutir, mas se trata de um debate interditado pela militância petista, é a responsabilidade do PT na criação de um ambiente político em que eleitores, mesmo que um tanto contrariados, olhem as alternativas e digam: “bom, é o que temos pra hoje”.

*Professor do Departamento de História da Universidade Federal do Paraná.

Texto originalmente publicado no Facebook e reproduzido aqui com permissão do autor.

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