Anomia, algodão, cristais e nervos de aço

*Por Luiz Carlos de Oliveira e Silva

1. A batalha entre o judiciário e o legislativo no Rio de Janeiro, desencadeada pela prisão de Picciani e dos outros dois ladroaços, somada à intervenção da PGR no caso, representa mais um passo dado em direção à anomia.

2. A batalha já é, ela mesma, sintoma de anomia: quando um poder resolve peitar um outro, é porque o “peitador” considera o “peitado” desmoralizado o suficiente para ser alvo de ataque. Ou o “peitador” está exorbitando de suas funções, sem temer as consequências. Nos dois casos, temos sintomas de anomia.

3. Anomia é uma situação de desmoralização das instituições perante não só a população como também uma instituição perante a outra. É a falência múltipla dos órgãos institucionais que leva ao vale tudo.

4. A ambiguidade das últimas decisões do STF abriu um campo para o vale tudo entre o judiciário e o legislativo no que diz respeito a prisões de parlamentares.

5. A corrupção rolava solta há anos no Rio de Janeiro, mas não tínhamos, apesar disto, uma escalada em direção à anomia. As instituições “funcionavam”, ou seja elas não estavam em cheque diante da população, apesar da corrupção deslavada.

6. A situação vem dando um salto de qualidade. A batalha entre o judiciário e o legislativo já é, ela mesma, sintoma de anomia. Um sintoma eloquente…

7. Outra coisa: se a anomia se instalar realmente, o jogo fica zerado. Com o jogo zerado, quem vai sair na frente são as forças dominantes…

8. No cenário político não há forças políticas nem figuras como Sarney e Tancredo para negociarem, pela situação e pela oposição, uma saída sob controle para a crise, como aconteceu na transição da ditadura para os governos civis…

9. Não há forças políticas nem personalidade para negociarem uma saída controlada para crise, porque todas forças políticas e todas as personalidades são partes integrantes da crise. Neste vazio, não há quem reúna força e legitimidade nem para pôr fim à escalada em direção à anomia.

10. Nunca um “acordão por cima” foi tão difícil de ser costurado. Está faltando algodão e sobrando cristais…

11. Uma possível polarização entre Bolsonaro e Lula só aprofundará o quadro em direção à anomia. Quem perder as eleições em 2018, no atual quadro de polarização, não reconhecerá o vencedor, prolongando a crise.

12. A demonização do PT e de Lula, fiadores da estabilidade política sob o comando do rentismo, foi um erro do qual provavelmente a plutocracia irá se arrepender.

13. Esta demonização abriu campo para a insanidade política da qual vêm se aproveitando Bolsonaro e outros oportunistas de mesmo jaez.

14. O golpe do impeachment desorganizou todo o nosso sistema político, baseado que estava no consórcio formado pela polarização “civilizada” entre tucanos e petistas.

15. A conjuntura futura, pelo jeito, exigirá de todos nós nervos de aço… E força psíquica e política para não sermos tragados pela torrente dos acontecimentos.

*Professor de Filosofia, Política e Literatura.

Texto originalmente publicado no Facebook e reproduzido aqui com permissão do autor.

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