A morte do político Doutor Jorge ou um obituário para esperança

*Por João Guilherme de S. Corrêa

A política no Brasil já não andava fácil. Nenhum sinal nos levava a acreditar que ela pudesse melhorar em 2018. Com a morte do político mineiro Doutor Jorge Rodrigues da Silva no último dia 05 de novembro na cidade de Manhumirim, em Minas Gerais, ficamos com a impressão de que as coisas não vão melhorar tão cedo e podem ainda piorar.
É certo que o Doutor Jorge não poderia ser, sozinho, a salvação para a atual crise brasileira. É certo também que não poderíamos esperar que a melhoria da situação política e econômica do país pudesse chegar através da eleição de algum salvador nacional. Mas sem dúvida, sua morte ajuda a alimentar o cenário de desesperança com a situação nacional. Manhumirim perdeu seu melhor político. O Brasil e o mundo perderam por não conhecê-lo.
Antes de continuar, preciso explicar para quem não é de Manhumirim, quem foi o Doutor Jorge. Penso que quanto mais gente souber quem ele foi, mais chance teremos de sair desta crise – crise que trazemos como projeto de desenvolvimento de nação há mais de 500 anos .
Doutor Jorge Rodrigues da Silva – respeitosamente chamado de Jorge Lereta – era o Rei do Brasil Mundial. Jorge era Rei do Brasil Mundial, no mínimo, para si mesmo e para a população de Manhumirim. Fato é que ele concedeu esse título a si mesmo e nunca houve ninguém que tenha questionado sua validade em toda sua vida. Eu, que cresci em Manhumirim, nunca vi quem duvidasse – fosse padre, juiz, militar ou outro político – do seu título de doutor e da autoridade do seu republicano mandato monárquico (ou monárquico mandato republicano, tanto faz). Pelo contrário, o povo desta pequena cidade sempre viu como legítima a representação política do seu mais conhecido cidadão (e aqui, a palavra representação pode ser tomada nos seus dois mais conhecidos sentidos). Jorge podia ser encontrado vagando pela cidade a qualquer hora do dia, mas com mais facilidade, tarde da noite. Ele falava sempre da injustiça da política, que ganhava todas as eleições, que nunca lhe davam posse e vivia buscando alguém que pudesse levá-lo até Brasília para assumir o lugar que era seu por direito. Nas suas andanças, pedia votos, cantava sua música de campanha, posava para fotos, distribuía ministérios e funções em estatais (tinha uma fixação maior pelo DER) e fazia promessas para quando tomasse posse no cargo. A mais famosa de todas essas promessas era a de levar o mar para Manhumirim: “Construir a praia em Mãimirim. Mas a água vai vim manilhada lá di Marataízes… im manilhão zerocem”, anunciava ele.
Não vou colocar o ano que Jorge nasceu porque não importa. Para qualquer manhumiriense, ele existe desde quando há a cidade. Filho legítimo e reconhecido da pobreza, Jorge levava seu corpo minguado pelas ruas da cidade com as sequelas de uma hipertensão mal tratada. Os pés enormes que nunca cabiam nas havaianas de solas finíssimas e as pernas muitos inchadas faziam parecer que ele sofria de elefantíase. Vestindo o corpo pequeno e moreno, uma calça e uma camisa social ou de gola polo, um blazer ganhado de alguém maior que ele e, pendurada no pescoço, uma gravata grossa que também parecia sofrer de elefantíase. Tudo sempre sujo ou roto pela quantidade do uso, pelo mal cuidado e pelo hábito de andar por toda a cidade e de sentar pra descansar em qualquer lugar. Como parte do Jorge, ainda havia uma maleta de couro. Dentro dela, já tive oportunidade de ver, alguns papeis que não teriam valor para você ou para mim, mas que para ele valiam como se fossem o atestado de algum juiz eleitoral autorizando-lhe a posse ou até, como me disse uma vez, no começo da década de 2000, seriam bilhetes premiados do Papa Tudo que haviam lhe dado o direito de resgatar 10 Chevettes.
Certa vez, um pároco recém-chegado na cidade, preocupado com o que ele julgou serem injúrias que a população fazia com o Jorge, ao alimentar o que o sacerdote também julgou como sendo uma esquizofrenia, foi conversar com os seus pais, já bastante idosos. Ao expor aos pais do homem público o que viu fazerem com ele, sugeriu que tirassem da cabeça do seu filho a ideia de que ele era Rei do Brasil Mundial. Depois de ouvir pacientemente as explicações do padre, o pai do Jorge teria dado a resposta definitiva: “Sêo padre, falei prá meu fio não entrá na política. Agora que ele entrô, o poblema é deli.”
Jorge pensava em política o tempo inteiro. Uma vez eu estava num bar assistindo uma partida de futebol pela televisão e o Jorge ficou em pé atrás de mim olhando para a tela. Quando as câmeras começaram a filmar a torcida no estádio, ele virou-se para mim e perguntou: “Essi povu tudu vota im min, num vota?” Fazendo de tudo para ser um político de massas, Jorge não queria perder a fidelidade do seu eleitorado, e, por isso, não torcia para nenhum time especificamente. Sabiamente justificava: “Torço pra todos. Não posso tê time se não eu percu eleitô.”
De fato, a vida do Jorge era a política. Mas, mais importante, política era também a vida que ele levava. E política não entendida como o poder exercido por pessoa com algum cargo eletivo ou comissionado. Jorge fazia política no dia a dia, sendo quem é e inspirando as outras pessoas. De terno e gravata e chinelo de dedo, Jorge cortava lenha para os pais e discutia os problemas do país… E tinha sugestão para solucioná-los: “Us adultu piquenu e us adultu grandi vão istudá di dia e trabaiá di noiti”. Uma frase que sintetiza uma concepção de mundo onde todos têm que ter acesso à educação e ao trabalho. Ainda com essa mesma concepção política de justiça, ele dizia que: “Si trabaiá muito ganha muito, si trabaiá pôco ganha pôco”, expressando o que de melhor uma tradição de política social já propôs para alcançar a igualdade. Não era por outro motivo que ele dizia que o seu partido era o PRN, o Partido Social Internacional. Nessa confusão entre siglas e extensões, Jorge conseguia resumir sua política. Era como se dissesse: a solução passa pelo atendimento das questões sociais. E tem que ser internacional.
Sem origem aristocrática, Jorge era um Silva que queria e fazia um mundo melhor. Uma pessoa do povo que via a política como a atitude para melhorar a sociedade e a vida dos mais pobres, nunca para ganhar dinheiro ou prestígio. Jorge morreu, sua presença física já não poderá ser mais vista em Manhumirim ou noutro lugar. Ele fará falta em 2018 como já está fazendo hoje. Se o cenário político brasileiro não tem dado margens para esperança que, pelo menos com sua morte, as lembranças de sua vida, da humildade de seus gestos, de suas utopias, de seu senso de justiça e sua noção de política seja o governo das nossas ações no mundo.

*João Guilherme de S. Corrêa é Professor da Unespar em Paranaguá. Queria ser só óciologo. Pensa que escreve

Texto originalmente publicado no Facebook e reproduzido com permissão do autor.

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