Minha vida não cabe na mochila

Por Simone Frigo * Eu nunca entendi essas pessoas que conseguem ter o desapego de realmente levar a casa, a vida em uma mochila. Admiro com uma pitada de receio, mas não entendo. Tem aquelas que conseguem reduzir todos os seus objetos, fazendo-os caber em uma mala. Mas falo não só do desapego das coisas […]

Relatos de um sobrevivente do Massacre da Praça Nossa Senhora de Salete

Julio Cesar Gonçalves da Silva*

Confesso que sim, precisávamos ocupar a ALEP. Era o único recurso que podia barrar a derrota anunciada. Sabíamos no fundo que seria impossível. Mas, resolvemos tentar. Fui surpreendido porque, durante alguns segundos de empurra-empurra, os policiais não haviam soltado nenhum spray de pimenta para nos dispersar. Instantes depois já tinha a plena consciência de que essa nunca foi a intenção deles, o que queriam era nos massacrar.

Começaram a reação diretamente com bombas e tiros de borracha. E mesmo com todos nós correndo em retirada não paravam de nos atacar com todo seu arsenal repressivo. Uma bomba explodindo em minha frente, outras duas em cada um dos meus lados, também explosões atrás. Cenas que lembravam um filme de ação ou um jogo macabro de videogame. Infelizmente eram reais e apavorantes. O zumbido de balas de borracha no ouvido que denunciavam sua proximidade do meu corpo assustavam ainda mais.

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O dia em que vi o Cine Paradiso ser demolido

Carlos Moreira*

Eu estava lá. Não só eu, muito mais gente estava. Havia repórteres, fotógrafos, autoridades e diversos curiosos, além é claro dos técnicos responsáveis pelo trabalho. Enquanto uns aguardavam para ver o espetáculo fascinante que pode ser uma grande implosão, um grupo (numeroso, diga-se), ainda tentava impedir o ato que estava para se consumar. Tinham a esperança de conseguir uma liminar na última hora e assim ao menos protelar a detonação. Dentre estes, havia alguns mais radicais que cogitavam se amarrarem nas colunas de sustentação, servindo assim de escudo humano na defesa do grande templo. Mas essa atitude radical com certeza seria impedida pelo forte esquema de segurança montado pela polícia.

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“Quem traz na pele uma marca (…)Maria, Maria”

*Camila Balsa

Neste último dia 29, aniversário de Curitiba, resolvi ir até a reinauguração da Feira do Poeta, vinculada à Fundação Cultural de Curitiba e pertinho daquela parte da feirinha do Largo da Ordem em que vendem livros, antiguidades e, bem, outras gostosuras como pastéis, batatas e coxinhas. Como promessas apetitosas, a feira que havia ficado fechada por 12 anos, terá encontros, lançamentos, declamações e performances. Como a maioria das inaugurações, as pompas não deixaram sentir o gostinho de como o espaço será aproveitado exatamente. Mas foram esses protocolos que me trouxeram a feliz oportunidade de visitar a bela exposição na Casa Romário Martins (espaço localizado ao lado da Feira do Poeta, Largo Coronel Enéas, 30, Largo da Ordem – São Francisco).

A Casa Romário Martins recebe o nome do historiador que atribuiu a data de 29 de março como o aniversário da cidade e, agora, abriga o retrato de um acontecimento, ocorrido na cidade, quase desconhecido: o caso de uma mulher parda e pobre do século XIX, que recusou acatar as ordens de duas mulheres da elite curitibana da época, ambas casadas com políticos. Na antiga região de Tindiquera (atual município de Araucária), as mulheres se dirigiram à Maria Águeda, ordenando que ela pegasse brasas na saída da missa, para que pudessem aquecer os pés. Contrariando as expectativas, Maria disse não. E esse mesmo “não” fez a mulher parda, pobre e grávida ir presa.

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