Alguns perigos do fundamentalismo (ainda sobre a PEC 171)

A PEC 171, objeto de discussão dos últimos dias, passou na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ). A fragilidade da argumentação dela foi discutida pelo Luiz Belmiro neste post aqui. Porém, alguns argumentos utilizados pelo então deputado federal Benedito Domingos (PP-DF) em 1993 chamam a atenção e escancaram um problema sério da política brasileira: o fundamentalismo religioso.

O ex-parlamentar, que chegou a ser vice-governador do DF em uma das gestões de Roriz, e que depois, como deputado distrital, foi alvo de processo de improbidade administrativa por liberar verbas públicas para a própria igreja de que é pastor e também alvo da Operação Caixa de Pandora em 2009, utilizou duas passagens bíblicas, em detrimento de dados técnicos e estatísticos, como argumento durante a justificativa de sua proposta de reduzir a maioridade penal.

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Falácias sobre a maioridade penal e a justiça

Um dos principais debates que marcou a política nacional durante a última semana foi a respeito da redução da maioridade penal no Brasil, e pretendo discutir aqui alguns dos inúmeros argumentos sagazes e sensatos a favor da proposta. Primeiramente, o caráter preventivo defendido pelo autor da proposição, o deputado federal Marcos Rogério (PDT-RO), pelo raciocínio do parlamentar, a redução terá o efeito de amedrontar e inibir os atos dos potenciais meliantes que se aproveitam do fato de serem menores de idade para cometer atrocidades e barbáries com as pessoas de bem deste país.

Pois bem, este é o mesmo raciocínio por trás de várias propostas de lei que já vimos serem formuladas e tramitarem no Congresso Nacional, mas se qualquer legislação tivesse tal poder, então o mundo seria um lugar perfeito. Devemos lembrar que nem mesmo os dez mandamentos tem tal poder sobre os fieis cristãos, afinal de contas, não matarás e não roubarás estão entre as restrições impostas por Deus a todos aqueles que desejam um dia entrar no paraíso. E se nem mesmo a promessa máxima de passar a eternidade ao lado do Senhor todo poderoso é capaz de impedir as pessoas de cometerem tais atos, o que dirá um corpo de lei formulado por meros mortais.

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Polêmica do beijo em novela escancara uma sociedade intrometida e atrasada

Allan Simon *

O beijo entre duas personagens interpretadas por atrizes veteranas, Fernanda Montenegro e Nathália Timberg, provocou imensa polêmica e um boicote de setores evangélicos à novela “Babilônia”, exibida atualmente pela Rede Globo.

A julgar pela queda nos índices de audiência, que parecem preocupar a emissora, o boicote vem dando certo. Todo esse cenário mostra uma sociedade extremamente intrometida, atrasada e autoritária. Os que se incomodam com uma expressão de amor entre duas pessoas apenas pelo fato de ambas serem do mesmo sexo não têm mais medo de se revelarem como homofóbicos e propagadores do ódio.

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“Quem traz na pele uma marca (…)Maria, Maria”

*Camila Balsa

Neste último dia 29, aniversário de Curitiba, resolvi ir até a reinauguração da Feira do Poeta, vinculada à Fundação Cultural de Curitiba e pertinho daquela parte da feirinha do Largo da Ordem em que vendem livros, antiguidades e, bem, outras gostosuras como pastéis, batatas e coxinhas. Como promessas apetitosas, a feira que havia ficado fechada por 12 anos, terá encontros, lançamentos, declamações e performances. Como a maioria das inaugurações, as pompas não deixaram sentir o gostinho de como o espaço será aproveitado exatamente. Mas foram esses protocolos que me trouxeram a feliz oportunidade de visitar a bela exposição na Casa Romário Martins (espaço localizado ao lado da Feira do Poeta, Largo Coronel Enéas, 30, Largo da Ordem – São Francisco).

A Casa Romário Martins recebe o nome do historiador que atribuiu a data de 29 de março como o aniversário da cidade e, agora, abriga o retrato de um acontecimento, ocorrido na cidade, quase desconhecido: o caso de uma mulher parda e pobre do século XIX, que recusou acatar as ordens de duas mulheres da elite curitibana da época, ambas casadas com políticos. Na antiga região de Tindiquera (atual município de Araucária), as mulheres se dirigiram à Maria Águeda, ordenando que ela pegasse brasas na saída da missa, para que pudessem aquecer os pés. Contrariando as expectativas, Maria disse não. E esse mesmo “não” fez a mulher parda, pobre e grávida ir presa.

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Cicatrizes da Ditadura ainda estão nos logradouros

Placa indicando a Avenida Marechal Humberto de Alencar Castelo Branco, em Curitiba. Vários locais públicos ainda carregam nomes de presidentes e apoiadores do Regime Militar. (Foto: Leonardo Bonassoli)
Placa indicando a Avenida Marechal Humberto de Alencar Castelo Branco, em Curitiba. Vários locais públicos ainda carregam nomes de presidentes e apoiadores do Regime Militar. (Foto: Leonardo Bonassoli)

Nesta quarta-feira, o Brasil completa 51 anos do golpe militar que implantou uma sangrenta ditadura de 21 anos. Como o Thiago Bagatin escreveu há alguns dias, ao contrário do que os saudosos da repressão pensam, não foi uma era sem corrupção. Ela era menos fiscalizada e divulgada.

Fora as grandes sequelas emocionais, sociais, econômicas e educacionais que o regime de exceção deixou no Brasil, outras cicatrizes estão bem presentes nas cidades brasileiras: nomes de logradouros (ruas, praças, edifícios, praças esportivas, escolas) com nomes dos presidentes generais, responsáveis por liderar tão nefasto regime. Em alguns lugares, leis surgem para que os moradores tenham o direito de alterar os nomes de locais que tenham nomes de torturadores, sejam presidentes ou pessoas diretamente ligadas aos acontecimentos. Sendo assim, vamos mostrar onde ficam algumas destas cicatrizes que temos nas nossas cidades, com alguns locais com nomes dos três primeiros dos cinco presidentes da ditadura, mostrando que infelizmente seguimos cercados de referências a um período funesto da história brasileira.

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