Principalmente às minhas amigas e amigos

por Letícia Camargo

Aos meus primos, tios, aos meus pais, mas principalmente às minhas amigas e amigos.

Esse é meu último texto com a certeza de que posso me pronunciar livremente e defender o que sou, o que faço, o que luto e acredito. Isso pode mudar dependendo do que acontecer hoje.

Você que faz parte da minha vida, que me conhece mesmo, sabe que não me envolvo nem me dedico a nada que não seja para o bem coletivo. Este último alerta é com esse objetivo também.

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Dicas e afins para o carnaval carioca de 2018

Cordão do Boitatá lota todo ano a Praça XV, no centro do Rio de Janeiro!

Por Bernardo Pilotto*

Depois da grande catarse coletiva chamada Trem do Samba (que marca o Dia Nacional do Samba no Rio de Janeiro), entramos no período pré-carnavalesco. Portanto, já é hora de fazer a versão 2018 do guia carnavalesco.

Gostaria de explicar que este roteiro que segue abaixo é fruto da minha experiência pessoal, visto que desde 2006 frequento, sem falta, o carnaval carioca e fui aprendendo nestes anos algumas dicas de bloco, descartando outros, etc. Há outras possibilidades e outros roteiros também. Fique atento, de qualquer forma, a algumas dicas que acabam sendo universais.

De 2006 pra cá, muita coisa mudou. Na metade da primeira década do século XXI não tínhamos WhatsApp e os guias de carnaval online eram raros. Praticamente dependíamos todos e todas do guia produzido pelos mandatos do PSOL. Agora você consegue quantos guias quiser na internet. Outra mudança é que, neste período, surgiram uma infinidade de blocos, especialmente os diferentões, que tocam outros tipos de música além do samba e das marchinhas, como Beatles, Roberto Carlos, Tim Maia, etc.

Seguem as principais dicas:

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A morte do político Doutor Jorge ou um obituário para esperança

*Por João Guilherme de S. Corrêa

A política no Brasil já não andava fácil. Nenhum sinal nos levava a acreditar que ela pudesse melhorar em 2018. Com a morte do político mineiro Doutor Jorge Rodrigues da Silva no último dia 05 de novembro na cidade de Manhumirim, em Minas Gerais, ficamos com a impressão de que as coisas não vão melhorar tão cedo e podem ainda piorar.
É certo que o Doutor Jorge não poderia ser, sozinho, a salvação para a atual crise brasileira. É certo também que não poderíamos esperar que a melhoria da situação política e econômica do país pudesse chegar através da eleição de algum salvador nacional. Mas sem dúvida, sua morte ajuda a alimentar o cenário de desesperança com a situação nacional. Manhumirim perdeu seu melhor político. O Brasil e o mundo perderam por não conhecê-lo.
Antes de continuar, preciso explicar para quem não é de Manhumirim, quem foi o Doutor Jorge. Penso que quanto mais gente souber quem ele foi, mais chance teremos de sair desta crise – crise que trazemos como projeto de desenvolvimento de nação há mais de 500 anos .
Doutor Jorge Rodrigues da Silva – respeitosamente chamado de Jorge Lereta – era o Rei do Brasil Mundial. Jorge era Rei do Brasil Mundial, no mínimo, para si mesmo e para a população de Manhumirim. Fato é que ele concedeu esse título a si mesmo e nunca houve ninguém que tenha questionado sua validade em toda sua vida. Eu, que cresci em Manhumirim, nunca vi quem duvidasse – fosse padre, juiz, militar ou outro político – do seu título de doutor e da autoridade do seu republicano mandato monárquico (ou monárquico mandato republicano, tanto faz). Pelo contrário, o povo desta pequena cidade sempre viu como legítima a representação política do seu mais conhecido cidadão (e aqui, a palavra representação pode ser tomada nos seus dois mais conhecidos sentidos). Jorge podia ser encontrado vagando pela cidade a qualquer hora do dia, mas com mais facilidade, tarde da noite. Ele falava sempre da injustiça da política, que ganhava todas as eleições, que nunca lhe davam posse e vivia buscando alguém que pudesse levá-lo até Brasília para assumir o lugar que era seu por direito. Nas suas andanças, pedia votos, cantava sua música de campanha, posava para fotos, distribuía ministérios e funções em estatais (tinha uma fixação maior pelo DER) e fazia promessas para quando tomasse posse no cargo. A mais famosa de todas essas promessas era a de levar o mar para Manhumirim: “Construir a praia em Mãimirim. Mas a água vai vim manilhada lá di Marataízes… im manilhão zerocem”, anunciava ele.
Não vou colocar o ano que Jorge nasceu porque não importa. Para qualquer manhumiriense, ele existe desde quando há a cidade. Filho legítimo e reconhecido da pobreza, Jorge levava seu corpo minguado pelas ruas da cidade com as sequelas de uma hipertensão mal tratada. Os pés enormes que nunca cabiam nas havaianas de solas finíssimas e as pernas muitos inchadas faziam parecer que ele sofria de elefantíase. Vestindo o corpo pequeno e moreno, uma calça e uma camisa social ou de gola polo, um blazer ganhado de alguém maior que ele e, pendurada no pescoço, uma gravata grossa que também parecia sofrer de elefantíase. Tudo sempre sujo ou roto pela quantidade do uso, pelo mal cuidado e pelo hábito de andar por toda a cidade e de sentar pra descansar em qualquer lugar. Como parte do Jorge, ainda havia uma maleta de couro. Dentro dela, já tive oportunidade de ver, alguns papeis que não teriam valor para você ou para mim, mas que para ele valiam como se fossem o atestado de algum juiz eleitoral autorizando-lhe a posse ou até, como me disse uma vez, no começo da década de 2000, seriam bilhetes premiados do Papa Tudo que haviam lhe dado o direito de resgatar 10 Chevettes.
Certa vez, um pároco recém-chegado na cidade, preocupado com o que ele julgou serem injúrias que a população fazia com o Jorge, ao alimentar o que o sacerdote também julgou como sendo uma esquizofrenia, foi conversar com os seus pais, já bastante idosos. Ao expor aos pais do homem público o que viu fazerem com ele, sugeriu que tirassem da cabeça do seu filho a ideia de que ele era Rei do Brasil Mundial. Depois de ouvir pacientemente as explicações do padre, o pai do Jorge teria dado a resposta definitiva: “Sêo padre, falei prá meu fio não entrá na política. Agora que ele entrô, o poblema é deli.”
Jorge pensava em política o tempo inteiro. Uma vez eu estava num bar assistindo uma partida de futebol pela televisão e o Jorge ficou em pé atrás de mim olhando para a tela. Quando as câmeras começaram a filmar a torcida no estádio, ele virou-se para mim e perguntou: “Essi povu tudu vota im min, num vota?” Fazendo de tudo para ser um político de massas, Jorge não queria perder a fidelidade do seu eleitorado, e, por isso, não torcia para nenhum time especificamente. Sabiamente justificava: “Torço pra todos. Não posso tê time se não eu percu eleitô.”
De fato, a vida do Jorge era a política. Mas, mais importante, política era também a vida que ele levava. E política não entendida como o poder exercido por pessoa com algum cargo eletivo ou comissionado. Jorge fazia política no dia a dia, sendo quem é e inspirando as outras pessoas. De terno e gravata e chinelo de dedo, Jorge cortava lenha para os pais e discutia os problemas do país… E tinha sugestão para solucioná-los: “Us adultu piquenu e us adultu grandi vão istudá di dia e trabaiá di noiti”. Uma frase que sintetiza uma concepção de mundo onde todos têm que ter acesso à educação e ao trabalho. Ainda com essa mesma concepção política de justiça, ele dizia que: “Si trabaiá muito ganha muito, si trabaiá pôco ganha pôco”, expressando o que de melhor uma tradição de política social já propôs para alcançar a igualdade. Não era por outro motivo que ele dizia que o seu partido era o PRN, o Partido Social Internacional. Nessa confusão entre siglas e extensões, Jorge conseguia resumir sua política. Era como se dissesse: a solução passa pelo atendimento das questões sociais. E tem que ser internacional.
Sem origem aristocrática, Jorge era um Silva que queria e fazia um mundo melhor. Uma pessoa do povo que via a política como a atitude para melhorar a sociedade e a vida dos mais pobres, nunca para ganhar dinheiro ou prestígio. Jorge morreu, sua presença física já não poderá ser mais vista em Manhumirim ou noutro lugar. Ele fará falta em 2018 como já está fazendo hoje. Se o cenário político brasileiro não tem dado margens para esperança que, pelo menos com sua morte, as lembranças de sua vida, da humildade de seus gestos, de suas utopias, de seu senso de justiça e sua noção de política seja o governo das nossas ações no mundo.

*João Guilherme de S. Corrêa é Professor da Unespar em Paranaguá. Queria ser só óciologo. Pensa que escreve

Texto originalmente publicado no Facebook e reproduzido com permissão do autor.

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O lavandeiro de Aécio e sócio de Luciano Huck e Bernardinho

*Por Caio Almendra

Hoje, a Polícia Federal intimou para depor Alexandre Accioly, em desdobramentos da Lava-Jato no Rio e nessas situações que uma luz paira sobre fatos sociais importantes e devemos aproveitar tal luz.

Está longe de ser a primeira vez que falo sobre Alexandre Accioly. Ele não é um político, nem mesmo é frente de qualquer esquema de corrupção. Ele está na parte de trás das operações, mais como um doleiro, um típico específico de atividade chamada “lavagem de dinheiro”.

Lavagem de dinheiro é uma expressão que muitos fingem entender, acenam, dizem “ôh” e seguem a vida. Meio como “mercado de futuros”, “física quântica” ou “massa folhada”. Então, vou cometer a chatice meio pedante de explicar o que é lavagem de dinheiro.

Imagina que você ganha dinheiro de forma ilegal. Digamos recebendo grana para emperrar CPIs, super-faturando aeroportos construídos em terras particulares com dinheiro público ou com tráfico de pasta base de cocaína em helicópteros. Se você quiser guardar esse dinheiro para quando seus esquemas secarem, você contrata um doleiro e manda o dinheiro para um paraíso fiscal. Mas e se você quiser gastá-lo?

Ora, digamos que seu salário é publicamente divulgado, todos sabem o quanto é e está na página do Senado como R$ 16.512,09. Bem, é bastante dinheiro para a realidade brasileira, mas graças a seus ganhos ilegais, você anda de avião particular e o aluguel de um para o trajeto Brasília-Rio de Janeiro custa mais de 25 mil reais. Então, você precisa explicar para pessoas que sabem o quanto você ganha(digamos, a receita federal) como você tem tanto dinheiro.

Aí, entra o lavandeiro. Um esquema de lavagem de dinheiro visa transformar dinheiro ilegal em dinheiro legal. E como isso é feito? Bem, primeiro, você monta uma empresa. A empresa precisa parecer séria, com gente que parece séria, com aspecto de lucratividade real. Não tem problema gerar pequeno lucro. Com essa empresa funcionando, você “infla” os seus lucros, dizendo que ela vendeu mais do que de fato vendeu, pagando parte dos fornecedores em dinheiro e etc. Assim, o seu dinheiro ilegal entra na empresa sem ninguém ver e sai da empresa como dinheiro legal. Para todos os efeitos, não é mais dinheiro ilegal, é lucro de uma empresa surpreendentemente lucrativa.

Não são todas as atividades que se prestam a lavar dinheiro. Não podem ser atividades muito reguladas ou fiscalizadas. Também não podem ser atividades que naturalmente deixem vestígios, façam fluxos muito grandes de mercadorias e etc. O ideal é que seja uma atividade que dê para fingir nos livros contábeis que faz mais dinheiro do que de fato faz. Digamos que você fabrique gelo. Ora, gelo é produzido a partir de água mais energia elétrica. Se sua conta de água e de eletricidade é baixa, não tem sentido dizer que você vende toneladas de gelo. Além disso, quem está comprando tanto gelo?

Digamos, então, que você tenha uma academia de ginástica. Você tem 100 clientes regulares mas escreve nos livros que tem 500. Sua academia pouco lucrativa rapidamente virou uma empresa ultra-lucrativa. Mais gente pagando a academia de ginástica não significa maior gasto de água, de eletricidade. Diabos, do jeito que as coisas são nesse mercado, não significa nem que mais pessoas vão às suas lojas(quem nunca se inscreveu em uma academia e quase nunca foi?). Assim, academias de ginástica, junto com empresas de ônibus, restaurantes, igrejas, são atividades prediletas para lavagem de dinheiro.

Alexandre Accioly foi apontado como o lavador do dinheiro de Aécio. Se vocês acham a cara do Gilmar Mendes esquisita, olhem bem o currículo de Accioly. Alexandre gosta de contar a história de que começou a empreender com um negócio de engraxate numa praça do Leblon, onde gerenciava o trabalho de amigos por 50% da comissão(fanfic de direita na veia). A-ham.

Ele empreendeu diversas coisas, de fato. Mas nenhuma deu grandes lucros ou crescimento. Montou um jornal que faliu, empresa de agenciamento para TV que faliu e uma de publicidade que também faliu. Deu certo quando abriu uma empresa de telemarketing que atendia à revista Veja(se você não está sentindo o cheiro de merda, deve estar gripado) que foi vendida pela “bagatela” de 140 milhões de reais para a Telefônica. A coisa não é pouco suspeita: uma empresa de telemarketing não costuma ter nenhum ativo de grande valor, a marca não é valiosa, os ativos são poucos e, bem, a maior clientela são justamente as empresas de telefonia. Ora, duvido que a Oi contratasse empresa de telemarketing ligada à Telefônica para atender suas demandas.

Depois disso, montou academias de ginásticas. E, claro, era sócio de Aécio Neves, senador da república do qual todos sabem o esquema. Perguntado sobre como é gerenciar tantos negócios, ele simplesmente afirmou que “são meus sócios que cuidam de tudo”. Ou seja, o sujeito tem um excelente tino para sócio. E, principalmente, se ele não cuida do dia-a-dia do negócio, o que ele faz? Como tudo que ele pisou a após o contato dele com a Veja virou ouro se ele mesmo assume que não cuida de suas empresas? Ora, é tão difícil entender que ele garante o dinheiro sujo e os sócios garantem a operação da lavanderia?

Alexandre Accioly é sócio em suas academias de ginástica de Luciano Huck, pré-candidato pelo PPS à presidência da república, e “Bernardinho do vôlei”, pré-candidato pelo Partido Novo(sic) ao governo do Rio de Janeiro. A direita está trocando o político sócio do Accioly do passado(Aécio Neves) pelos novos sócios do Accioly(Huck e Bernardinho). Você vai entrar nessa de votar nos novos aécios e dizer que não tem culpa? E quando um novo escândalo estourar vai dizer que não tem bandido de estimação?

Todo mundo sabe do esquema do Aécio para conseguir grana ilegal. Agora, você sabe do esquema do Aécio e do Accioly para transformar essa grana em dinheiro legalizado. Ficamos no aguardo da delação premiada do moço.

*Militante social.

Texto originalmente publicado no Facebook e reproduzido com permissão do autor.

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Anomia, algodão, cristais e nervos de aço

*Por Luiz Carlos de Oliveira e Silva

1. A batalha entre o judiciário e o legislativo no Rio de Janeiro, desencadeada pela prisão de Picciani e dos outros dois ladroaços, somada à intervenção da PGR no caso, representa mais um passo dado em direção à anomia.

2. A batalha já é, ela mesma, sintoma de anomia: quando um poder resolve peitar um outro, é porque o “peitador” considera o “peitado” desmoralizado o suficiente para ser alvo de ataque. Ou o “peitador” está exorbitando de suas funções, sem temer as consequências. Nos dois casos, temos sintomas de anomia.

3. Anomia é uma situação de desmoralização das instituições perante não só a população como também uma instituição perante a outra. É a falência múltipla dos órgãos institucionais que leva ao vale tudo.

4. A ambiguidade das últimas decisões do STF abriu um campo para o vale tudo entre o judiciário e o legislativo no que diz respeito a prisões de parlamentares.

5. A corrupção rolava solta há anos no Rio de Janeiro, mas não tínhamos, apesar disto, uma escalada em direção à anomia. As instituições “funcionavam”, ou seja elas não estavam em cheque diante da população, apesar da corrupção deslavada.

6. A situação vem dando um salto de qualidade. A batalha entre o judiciário e o legislativo já é, ela mesma, sintoma de anomia. Um sintoma eloquente…

7. Outra coisa: se a anomia se instalar realmente, o jogo fica zerado. Com o jogo zerado, quem vai sair na frente são as forças dominantes…

8. No cenário político não há forças políticas nem figuras como Sarney e Tancredo para negociarem, pela situação e pela oposição, uma saída sob controle para a crise, como aconteceu na transição da ditadura para os governos civis…

9. Não há forças políticas nem personalidade para negociarem uma saída controlada para crise, porque todas forças políticas e todas as personalidades são partes integrantes da crise. Neste vazio, não há quem reúna força e legitimidade nem para pôr fim à escalada em direção à anomia.

10. Nunca um “acordão por cima” foi tão difícil de ser costurado. Está faltando algodão e sobrando cristais…

11. Uma possível polarização entre Bolsonaro e Lula só aprofundará o quadro em direção à anomia. Quem perder as eleições em 2018, no atual quadro de polarização, não reconhecerá o vencedor, prolongando a crise.

12. A demonização do PT e de Lula, fiadores da estabilidade política sob o comando do rentismo, foi um erro do qual provavelmente a plutocracia irá se arrepender.

13. Esta demonização abriu campo para a insanidade política da qual vêm se aproveitando Bolsonaro e outros oportunistas de mesmo jaez.

14. O golpe do impeachment desorganizou todo o nosso sistema político, baseado que estava no consórcio formado pela polarização “civilizada” entre tucanos e petistas.

15. A conjuntura futura, pelo jeito, exigirá de todos nós nervos de aço… E força psíquica e política para não sermos tragados pela torrente dos acontecimentos.

*Professor de Filosofia, Política e Literatura.

Texto originalmente publicado no Facebook e reproduzido aqui com permissão do autor.

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