A mulher invisível

Alquimia filosofia e um certo dom de iludir. Em busca de bálsamos benignos para todas as feridas do corpo e da alma. Tudo que consegui foi a fórmula do desaparecimento. Tudo que preciso aprender é a viver só. Ainda necessito de outro corpo comigo pra me sentir viva e quente. Não caia no erro de achar que me conhece depois da primeira noite. Muitos caíram nessa armadilha. Apenas mais uma distração. Toda vez é igual. Um olhar sem querer um sorriso desajeitado e meus dons não me deixam passar desapercebida. O que começa num gole de cerveja termina num cigarro manchado de batom. Sempre anoiteço enlaçada e amanheço sozinha. Viro o rosto enquanto a porta se fecha e choro antes de cair no sono da manhã. Lágrimas por ninguém. Talvez por perder mais um disfarce. Me encaro no espelho comigo mesma e experimento todas as cores que criei para um novo rosto. Forjo um novo anel de prata. Aquela que conheceu na última noite não mora mais aqui. Então começo novamente depois do almoço. Não quero ser desmascarada. Ninguém é perfeito mas tenho medo que descubram que também não sou. Parecer insensível desaparecer invisível. Passar desapercebida em festas de família. Ser reconhecida em meio à multidão. Subestimada como todo filho do meio. A esperança nunca me deu atenção e o desespero me deixou crescer solta. Mas ganhei armas de meus irmãos para me proteger de você. Salto 15, verdades cruéis, pernas torneadas, unhas cumpridas, lingerie branca e mentiras. Há séculos que te vejo se aproximar. Conheço todos os seus truques para me impressionar. Já ouvi de outras bocas as mesmas palavras para me elogiar. Não vivi o bastante para me arrepender por nós dois. Fique onde está e não me olhe assim. Nunca mais me diga meu amor.

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