A reforma trabalhista na Espanha

*Por Pedro Vieira

Em relação à reforma da previdência e a reforma trabalhista eu gostaria de fazer o meu relato enquanto trabalhador que vivenciou condições de trabalho análogas as que estão sendo aprovadas aqui no Brasil.

Tenho dupla cidadania e enquanto fiz mestrado na Espanha ano passado, trabalhei durante um ano em um restaurante de Madri. Assim que cheguei por lá rapidamente consegui emprego em um dos restaurantes mais prestigiados da cidade, pois tenho ampla experiência em gestão de gastronomia. Como meus amigos bem sabem, se hoje sou empresário, trabalho desde os 16 anos na área de alimentos e bebidas e não por escolha, mas porque desde cedo sou independente financeiramente.

Bom, durante minha entrevista de emprego foi acordado que eu teria 2 folgas semanais e trabalharia 8 horas por dia. Toda a hora extra entraria em um banco de horas. As condições de trabalho me pareceram razoáveis e eu precisava muito do emprego. Entretanto, aqui fica o detalhe, o contrato que assinei dizia que as regras eram flexíveis e passíveis de acordo entre eu e o meu empregador.

Na prática o que acontecia?
Eu trabalhava frequentemente mais de 10 horas por dia em turnos cortados. Quer dizer, era chamado para trabalhar das 10 às 16, por exemplo, e depois tinha que retornar das 18 às 12. Isso ocorria por dias e dias e as vezes, depois de 7 dias seguidos de trampo folgava apenas um dia e meio. Por lei eu tinha direito a 3 folgas a cada 14 dias. Não preciso nem dizer o que acontecia né pessoal? Por diversas vezes trabalhei 10 dias sem folga e chegava ao ponto de exaustão física com dores nos pés e nos joelhos insuportáveis. Enfim, por lei era isso que me restava.

Sem exagero, em um ano de trabalho, posso contar nos dedos os dias que trabalhei 8 horas. As vezes trabalhava 10 (sem contar o tempo para chegar ao restaurante e as horas de “folga” no meio do turno). As vezes era chamado para trabalhar apenas 2 horas. 2 horas!!! O valor que eu era pago não pagava o custo do meu transporte, mas tudo isso era em nome do “acordo livre” que eu tinha com o meu patrão. Como eles tinham liberdade de fazer esses turnos ridículos, o banco de horas nunca era usado em meu favor já que as horas extras eram usadas para cobrir esses turnos ridiculamente curtos. Na prática, mesmo exausto, eu sempre estava devendo horas para o meu empregador.

Emagreci 8 quilos em apenas 60 dias, cai da escada do restaurante e fiquei com um hematoma enorme nas costas, mas não podia pedir licença médica com medo de ser demitido, pois o meu contrato de experiência não era de 90 dias, mas sim de 12 meses!!!!

Depois de muita humilhação e exploração – cheguei a me reunir com o dono do restaurante e comentar que aquelas condições de trabalho eram as piores que tinha vivenciado, isso porque já havia trabalhado no Brasil, Inglaterra e EUA – fui buscar meus “direitos” e descobri que não tinha nenhum. Os donos do restaurante justificavam sempre com a “crise”, mesmo sendo donos de mais de 5 empreendimentos na área. Sindicato não tinha força nenhuma e as organizações de “classe” eram articuladas pelos próprios empresários apenas para legitimar os acordos.

Assim como aqui, eu tinha direito a férias, mas não por 30 dias corridos. Minhas férias eram todas picadas e como não tinha pagamento de hora extra em feriados (acordado com o empregador!) e apenas um dia e meio de folga na semana (mesmo na entrevista terem acordado diferente comigo), as férias se esvaziam e na prática tornavam-se apenas folgas. O restaurante não tinha o número suficiente de funcionários já que podia “brincar” com todos nós, e quando alguém tirava férias quem ficava tinha que trabalhar ainda mais pesado.

Hoje, como empresário do ramo não desejo essas condições laborais para ninguém, pois as vivenciei. Não é exagero o retrocesso que isso representa, eu mesmo costumava dizer que a Europa tinha voltado ao século XIX quando tinha que trabalhar como um louco e isso em um restaurante de prestígio. Sempre imaginava como estavam as pessoas que não tinham os mesmos privilégios que eu (branco, documentado, com ensino superior e fluente em espanhol). Greve geral é pouco!

*Fotógrafo

Texto publicado originalmente no Facebook e reproduzido aqui com permissão do autor.

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