Curitiba: a capital da insensatez (2)

*Por Luiz Carlos de Oliveira e Silva

Em 17 de março de 2016 publiquei o que segue.

A PERMANÊNCIA DAS NOSSAS MISÉRIAS: escravidão, patrimonialismo

1. Moro em Copacabana, zona sul do Rio de Janeiro, numa área de classe média intermediária.

2. Hoje fui acordado pelo som de panelaço. Era a posse de Lula no ministério de Dilma.

3. Vi pela tevê e pela janela a expressão de velhas misérias que insistem em nos atormentar.

4. Misérias atuais que dão continuidade àquelas fundadoras da nossa nação: a escravidão e o patrimonialismo.

5. O Brasil foi fundado pela escravidão e pelo patrimonialismo. Estas misérias, desde então, tornaram-se fantasmas que não cessam de nos atormentar.

6. Estas misérias, em passado recente, vestiram a roupa do udenismo, quanto ao escravismo, e a de um certo trabalhismo, quanto ao patrimonialismo. Hoje se apresentam, respectivamente, como antipetismo, de um lado, e petismo no poder, de outro.

7. O patrimonialismo de um certo trabalhismo trouxe para dentro do estado não só os interesses de uma parcela da burguesia como também os de um sindicalismo atrelado.

8. O udenismo expressou, sob o disfarce de um moralismo sob medida e seletivo, a enorme dificuldade de uma parcela da população de aceitar o fim da escravidão, com a inclusão real de negros e pobres no mundo que eles queriam só para si.

9. Na atual polarização entre petismo no poder e antipetismo, não consigo deixar de ver a permanência das nossas misérias ancestrais.

10. Os efeitos da escravidão persistem no tempo também como udenismo, no passado recente e, atualmente, como antipetismo raivoso de direita.

11. No centro da revolta antipetista há, como fator principal, a permanência da recusa da classe média mais tradicional em aceitar a mobilidade social de negros e de pobres, proporcionada, em alguma medida, pelos governos petistas.

12. Eles odeiam toda e qualquer política afirmativa, cotas, programas de transferência de renda, bolsas-auxílio, tudo que possa diminuir o fosso que os separa de negros e pobres.

13. Nas manifestações eles vestem a camisa da CBF e agitam bandeiras verde-e-amarelo. Para eles, o Brasil é apenas uma ideia abstrata, país sem povo.

14. Dizem amar o país, mas odeiam o seu povo, o povo pobre que constitui a maioria da nossa gente. Pobre e preto, só se for nos campos de futebol e nos palcos de show de pagode.

15. Esta classe média “separatista” é o centro de onde parte a onda antipetista que avança sobre o lago. Pelo efeito manada, levam consigo pessoas cujas consciências estão sendo formadas pelo jornalismo de direita da grande mídia. (Claro que há antipetista de outros feitios, mas falo do que julgo ser a maioria.)

16. A denúncia da corrupção, que tanto excita esta classe média tradicional, é apenas um artifício, um jogo de cena, como o fora nos tempos do udenismo original.

17. Caso fosse à vera a ojeriza à corrupção, eles exigiriam que as investigações e as denúncias não ficassem limitadas ao PT e aliados, como estão até agora.

18. São cínicos ou desinformados. Seu moralismo é de ocasião, ou de roldão.

19. O udenismo, herança moderna da escravidão, vive! Carlos Lacerda hoje veste toga de ministro e o seu partido é a grande mídia.

20. O patrimonialismo, a outra das nossas misérias fundadoras, também vive. A prática política como apropriação privada do que é público nunca deixou de nos infernizar.

21. Em um certo momento de sua história, o PT, que até então vinha sendo uma extraordinária construção coletiva, de baixo para cima, a partir dos mais sentidos interesses das camadas populares, teve que pôr à prova a profundidade do seu declarado compromisso antipatrimonialista.

22. Deu-se que, depois de tantas derrotas eleitorais para a presidência da república, o PT foi levado a acertar as contas consigo mesmo.

23. Em meio à acirrada luta interna, o pragmatismo venceu a utopia. E o pragmatismo trouxe consigo a sua cara metade: o patrimonialismo.

24. Um bando toma de assalto o poder no partido, constitui uma direção paralela e clandestina, e faz o PT trilhar os caminhos que agora sabemos todos quais foram.

25. O PT se deixou levar pelo velho patrimonialismo e abraçou a plutocracia que sempre assaltou o estado. Destruiu assim o belo e generoso sonho da esquerda que sobreviveu à ditadura militar.

26. Vivemos uma conjuntura de crise política terrível. O terrível vem sobretudo do fato de que ela, a crise, é animada pelas velhas misérias de sempre: a escravidão e o patrimonialismo.

27. Só seremos um país minimamente decente quando superarmos estas duas heranças malditas.

28. Os governos do PT combateram, em alguma medida, uma das misérias, mas sucumbiram à outra. E toda a esquerda vai pagar o preço deste infortúnio por muito tempo.

29. Amanhã, dia 18, eu vou à manifestação. Vou ao lado de velhos companheiros de luta, muitos dos quais, provavelmente, não irão apreciar o que foi dito acima.

30. Vou comparecer por considerar que a derrubada de Dilma, caso aconteça, não será uma vitória da cidadania, mas, sim, uma vitória da direita, que instrumentaliza o judiciário, e que tem na grande mídia o seu principal instrumento de poder.

31. E toda vez que a direita vence, são derrotados os interesses nacionais, populares e democráticos do nosso povo.

*Professor de Filosofia, Política e Literatura.

Texto originalmente publicado no Facebook e reproduzido aqui com permissão do autor.

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