Curitiba: a capital da insensatez (3)

*Por Luiz Carlos de Oliveira e Silva

Em 25 de abril último, publiquei o que segue.

LULA E O.J. SIMPSON

1. O atleta e ator negro estadunidense, apesar das inúmeras evidências de que foi o assassino de sua ex-mulher e do namorado dela, foi absolvido pelo tribunal do júri, de maioria negra, em uma comarca de Los Angeles.

2. A defesa conseguiu manobrar para tirar O.J. do centro dos debates e colocar em seu lugar a polícia de Los Angeles, notória por seu racismo e violência contra os afrodescendentes.

3. A cobertura do caso e do julgamento tornou-se o “programa” de tevê de maior audiência durante meses, e a população se dividiu, cada lado fechando-se em si mesmo, como uma mônada. De um lado a comunidade negra fechava os olhos para as fortíssimas evidências de que O.J. era de fato o criminoso, para só ter olhos para a violência da polícia racista, cujas arbitrariedades foram sobejamente mostradas pela defesa no tribunal.

4. De outro, a maioria branca, em geral sem sensibilidade para a violência racista da polícia, mobilizou-se pela condenação de O.J, muito provavelmente por ser ele negro. A comoção causada pelo assassinato que envolveu um pop star, e pela cobertura escandalizante do julgamento, só teve a dimensão que teve por trazer à tona velhas mazelas inscritas na sociedade estadunidense, desde sempre.

5. Todos os fatos apresentados pela acusação e pela defesa eram “verdadeiros”, mas quem estava ligando para isto, já que cada lado só via o que o seu ressentimento lhes permitia ver? Diante das paixões exacerbadas, a realidade dos fatos ficou em segundo plano. A “pós-verdade” imperou…

6. De certa maneira, algo do tipo está acontecendo aqui entre nós. Diante das paixões exacerbadas pelo lulismo acrítico e pelo antilulismo hidrófobo, partes relevantes da realidade dos fatos têm ficado em segundo plano. Como em Los Angeles, também entre nós um incidente trouxe à tona uma terrível realidade de mazelas antigas, ainda não superadas. A Lava-Jato mostra que mazelas como o compadrio, o patrimonialismo, o preconceito e ódio de classe estão tão vivas hoje como sempre estiveram no passado.

7. Tudo isto faz um conjunto que dá bem mostras do nosso atraso político, social, institucional e mesmo civilizacional. Ao compadrio, tão escandalosamente presente nas relações de promiscuidade entre agentes públicos e empresários, somam-se o patrimonialismo, que sempre faz do bem público coisa privada, o preconceito e o ódio de classe contra Lula e a esquerda, com suas políticas de compensação social.

8. Como em Los Angeles, a paixão cega dos oponentes só enxerga o que lhes interessa. Os lulistas acríticos, por sacralizarem Lula, só vêm o “racismo da polícia de Los Angeles”, isto é, a seletividade partidária da operação Lava-Jato e os seus abusos de autoridade, fechando os olhos para a inaceitável relação de promiscuidade que o ex-presidente mantinha com a plutocracia, bem como para os indícios de crime cometido por ele.

9. Os antilulistas hidrófobos, por demonizarem Lula, só têm olhos para ver os indícios de crimes, tomando-os já como comprovados inapelavelmente, negando-se a ver o claro viés partidário com o qual a força-tarefa da Lava-Jato conduz as investigações, e os abusos cometidos por ela.

10. A maioria negra no tribunal do júri em Los Angeles acabou por absolver O.J., apesar de todas as evidências em contrário. Afinal, o mais importante era derrotar a polícia racista. Quer dizer: O.J. foi absolvido por ser negro e por ser a polícia de LA racista, não por ser ele inocente.

11. Lula não será julgado por um tribunal de maioria petista. Muito provavelmente Lula será condenado, não apenas por eventuais crimes que cometeu, mas por ser “negro”.

12. Talvez todos sairão, pelo menos de imediato, diminuídos depois disto tudo. Os lulistas acríticos por se recusarem a ver a conciliação de Lula com o compadrio e com o patrimonialismo. Também se recusam a ver os indícios de crimes cometidos por ele. Os lulistas hidrófobos sairão diminuídos por se recusarem a ver o viés partidário, o conteúdo de preconceito e de ódio de classe e os abusos de autoridade na operação Lava-Jato contra Lula e a esquerda.

13. Para os lulistas acríticos, Lula deve ser absolvido por ser “negro”, e por ser “racista” a força-tarefa da Lava-Jato. O resto não importa. Para os antilulistas hidrófobos, Lula deve ser condenado sobretudo pelo fato de ser “negro”, e por tudo o que isto significa. A força-tarefa não faz mais do que a sua obrigação, sendo “racista”. O resto não importa.

14. Para boa parte dos negros estadunidense, e também para o júri, o que importava é que O.J. era negro e que a polícia que colheu provas contra ele é absurdamente racista. Todos os demais fatos deveriam ser “lidos” à luz desta realidade inconteste. Para os lulistas acríticos, o que importa é que Lula é “negro” e que a operação Lava-Jato é “racista”. Todos os demais fatos devem ser “lidos” à luz desta realidade inconteste. Assim, Lula deve ser absolvido não por ser inocente, mas por ser Lula. Para o antilulismo hidrófobo, de modo análogo, Lula deve ser condenado, sobretudo, por ser ele Lula.

15. Que os que se recusam a ficar nesta caixa de rancores construída, em conjunto, por ambos os lados desta discussão de surdos tenham força para apontar uma saída republicana. Não a esta realidade de compadrio, patrimonialismo, preconceito e ódio de classe que insiste em nos manter presos a um passado de miséria e opressão. Nosso lugar de fala é, certamente, fora da caixa de rancores, porque os nossos valores devem estar comprometidos com o ideal republicano.

(PS.
O texto acima é uma repostagem. Da primeira vez que postei, houve alguns petistas que viram nele o que julgaram ser uma indevida comparação que eu teria feito entre Lula e O.J.
Não há qualquer comparação entre Lula e O.J.
O que eu fiz foi comparar comportamentos coletivos, e não pessoas.
Comparei o comportamento de grupos que ao elegerem um fato como o mais importante, se cegam para todos os demais.)

*Professor de Filosofia, Política e Literatura.

Texto originalmente publicado no Facebook e reproduzido aqui com permissão do autor.

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