Dicas e afins para o carnaval carioca de 2018

Cordão do Boitatá lota todo ano a Praça XV, no centro do Rio de Janeiro!

Por Bernardo Pilotto*

Depois da grande catarse coletiva chamada Trem do Samba (que marca o Dia Nacional do Samba no Rio de Janeiro), entramos no período pré-carnavalesco. Portanto, já é hora de fazer a versão 2018 do guia carnavalesco.

Gostaria de explicar que este roteiro que segue abaixo é fruto da minha experiência pessoal, visto que desde 2006 frequento, sem falta, o carnaval carioca e fui aprendendo nestes anos algumas dicas de bloco, descartando outros, etc. Há outras possibilidades e outros roteiros também. Fique atento, de qualquer forma, a algumas dicas que acabam sendo universais.

De 2006 pra cá, muita coisa mudou. Na metade da primeira década do século XXI não tínhamos WhatsApp e os guias de carnaval online eram raros. Praticamente dependíamos todos e todas do guia produzido pelos mandatos do PSOL. Agora você consegue quantos guias quiser na internet. Outra mudança é que, neste período, surgiram uma infinidade de blocos, especialmente os diferentões, que tocam outros tipos de música além do samba e das marchinhas, como Beatles, Roberto Carlos, Tim Maia, etc.

Seguem as principais dicas:

1) Nunca ande de carro, evite andar de ônibus. Serão cerca de 400 blocos pelas ruas da cidade ao longo do carnaval. Logo, a chance de uma rua estar bloqueada é sempre muito grande. Use metrô. No carnaval, ele funciona durante 24 horas (exceção da noite de terça pra quarta de cinzas). O passe do metrô é um cartão, onde você coloca crédito. Na primeira vez que você for pegar o metrô, já encha o cartão com bastante crédito (tipo R$100), para não pegar filas durante os festejos e não atrasar aquele seu coleguinha folião que fez o procedimento indicado. Se você tiver condição de escolher onde vai ficar, escolha algum lugar próximo ao metrô ou pelo centro da cidade (que aí você poderá gastar bem menos com transporte). Há dois tipos de cartão: o RioCard Bilhete Único Carioca (que funciona também no trem, VLT, ônibus e barca) e o cartão do MetroRio, que funciona só no metro.

2) Equipamentos obrigatórios: saco plástico para celular (pode chover, sempre tem gente jogando água pra cima nos blocos, você pode ir a praia ou ir a algum bloco que tem um carro pipa jogando água), protetor solar e lenço umedecido (nos últimos anos, tem aumentado o número de banheiros químicos. Mas, mesmo que você ache um, a tendência é não ter papel, visto que eles são colocados na sexta e só são vistoriados novamente na quarta de cinzas). Além desses, eu também recomendo usar uma polchete estilo “doleira” (aquela que vai dentro da calça) para evitar aborrecimentos com eventuais roubos e furtos. Se você chegar ao Rio antes do sábado, vá ao Saara (comércio popular do centro, próximo ao metrô Uruguaiana), onde há vários modelos pra vender. Custa cerca de R$5. Eu descumpri essa regra por 5 minutos em 2017 e tive meu celular furtado. Não foi legal.

Se você tem problema com assadura na parte interna das coxas, use vaselina pra prevenir e bepantol para curar;

3) Apesar de ser carnaval e ser Rio de Janeiro, as coisas tem horário. Evite chegar muito atrasado, senão você vai ser aquele folião de xepa de bloco, que só vê o trio de muito longe ou só chega na hora que a coisa acabou e só tá aquele fim de feira bebendo e no ti considero. Se você vai ficar numa casa com 17890428480 pessoas, saiba que você deve fazer um grupo menor, de 2 a 4 pessoas, para seguir o roteiro proposto, senão você vai sempre se atrasar e vai acabar não aproveitando quase nada. Evite ficar no bloco tentando achar as pessoas, pois desta forma você não aproveitará nada. Cuidado também ao tentar em ir em muitos blocos no mesmo dia: talvez você passe o dia dentro do metrô e acabe não aproveitando nada;

4) Um gasto financeiro alto no Rio é com alimentação, caso você opte por comer comida de verdade todos os dias. Se você tiver condição de comer na casa onde você vai estar, pelo menos em alguns dias ou alguns períodos, faça isso. Uma opção bacana é tomar um cafezão da manhã e comer ao chegar em casa a noite. Na rua existem diversos quitutes, como espetinhos, salsichão, batata frita, churros, frango empanado com cheddar. Seja moderado nestas opções. Eu nunca tive problemas, mas conheço gente que teve. Existem também diversas casas de suco no Rio de Janeiro que vendem algumas vitaminas energizantes, tigela de açaí, essas coisas. Essas são boas opções para dar aquele up que é necessário em alguns momentos;

5) O carnaval no Rio tem um fuso horário diferente. Especialmente no sábado e no domingo, os blocos começam cedo, perto das 8h da manhã. Isso faz com que a noite não seja muito prolongada. Você pode achar que não, mas isso é uma coisa maravilhosa. E, sempre é bom lembrar, eles são gratuitos, sem corda; é só chegar!  As opções noturnas são quase todas pagas e geralmente são caras;

6) Cuidado com as dicas daquele seu amigo super descolado. Isso porque há uma moda de ser diferentão no carnaval. Se você não escuta Roberto Carlos o ano todo e odeia o especial de natal da Globo, não é em pleno carnaval no Rio de Janeiro que você vai ir num bloco que toca só músicas dele, né?!? Você também não precisa ir naquele bloco que só toca música inédita do Noel Rosa de trás pra frente, certo? Optar pelo convencional, neste caso, não é ruim. Se o bloco existe há 40 anos e enche, é um bom sinal. E não vá naquele bloco que você leu na Veja: vai estar cheio de gente que não sabe nada de samba, de turista e, por conseqüência, de malandros querendo pegar uma carteira cheia de dólares;

7) Nos últimos dois anos, não fui a nenhum bloco na orla e priorizei o centro da cidade. Acredito que focar nessa região da cidade é a melhor forma de você ver um carnaval realmente diferente daquele que você tem em todas as cidades praianas do Brasil;

8) Atenção para o dinheiro: especialmente no centro da cidade, muitos bancos ficam fechados e você não tem acesso nem ao caixa eletrônico. Ou seja, saque uma boa quantia antes do carnaval e vá usando durante os festejos, pra evitar perrengues. Muitos ambulantes já aceitam cartão de débito mas é bom não arriscar;

9) Se você não conhece muita coisa de sambas e outras músicas carnavalescas, dá uma pesquisada, pra você não ficar boiando na hora que tocar aquele sambão e todo mundo cantar. Um resumão pode ser encontrado no DVD Os Mais Lindos Sambas-Enredo de Todos os Tempos e no CD Carnavalança;

10) Várias regras são flexibilizadas no carnaval mas uma permanece: não é não. Portanto, nada de tocar e pegar onde não foi chamado. Nenhuma mulher merece ser assediada;

11) Se você só vai a um bloco no carnaval inteiro, minha dica é: Cordão do Boitatá. Se você gosta da galera de humanas mas está com uma turma que quer também ver uma turma topzeira, recomendo que vá ao Bloco do Barbas, no sábado a tarde, em Botafogo;

12) Outra “tendência” dos últimos anos são os blocos que escondem quando vai sair. Confesso que isso me irrita um pouco, visto que eu gosto de ser convidado para as coisas. Apesar de se esconderem (ou justamente por isso), esses blocos lotam. Há toda mística em querer saber onde e quando vão sair, etc. Sei de 3 blocos nessa categoria: Minha Luz É de LED, Amigos da Onça e Bloco Secreto;

13) Vá fantasiado, use gliter, beba água, dance e cante como se não houvesse amanhã!

Bem… passadas as dicas gerais, vamos às dicas de blocos e de possíveis programações. Registre-se que há, na minha análise, vários motivos para um bloco ser bom: as músicas que tocam ou os músicos que o animam, a galera que vai, a tradição dele e/ou alguma característica própria.

Com estes critérios, eu destacaria os seguintes blocos e eventos:

a) Embaixadores da Folia: desfila pelas ruas do centro na sexta-feira a partir das 20h (sai próximo do Buraco do Lume, perto do metrô Carioca), tocando marchinhas e sambas tradicionais, com muitos instrumentos de sopro. Acaba agregando muita gente que acabara de sair do trabalho e que finalmente vai cair no carnaval. É a grande abertura do carnaval;

b) Amigos da Onça: em 2017 desfilou pelo centro na madrugada de sexta para sábado. Todo mundo fantasiado de oncinha cantando as músicas do bloco. Não tenho informações sobre o desfile de 2018. Vale a pena apenas caso você não vá estragar seu sábado de carnaval por conta dele;

c) Céu na Terra: desfila pelas ruas de Santa Teresa no sábado de carnaval, bem cedo. A concentração é no Largo dos Guimarães. Eu nunca consegui ir a este bloco, visto que por muitos anos priorizei o Cordão da Bola Preta e em outros aproveitei o sábado pela manhã para ir ao mercado ou outras coisas do tipo. É uma das minhas metas para 2018;

d) Truque do Desejo: o bloco toca pagodes dos anos 1990 animando os foliões que descem de Santa Teresa após o Céu na Terra. Nunca tive a chance de ir.  Ele promete, para 2018, começar a tocar as 11h;

e) Cordão da Prata Preta: desfila pelas ruas da Zona Portuária no sábado, a partir das 17h. Se você não tiver ido ao Céu na Terra, pode ir pra lá chegando no metrô Uruguaiana ou usando o VLT. É um bloco com repertório de sambas-enredo, marchinhas e sambas. Em alguns anos, tem também seu samba próprio (não é o caso de 2018). Em 2017, o bloco homenageou os 100 anos da Revolução Russa. Em 2018 o tema é Tropicália. O bloco sai da Praça da Harmonia e desfila por algumas ruas/ladeiras do entorno e depois volta pra Praça. É uma delícia;

f) Cordão do Boitatá: acompanho este bloco desde 2007. É o bloco mais lindo do carnaval. Vá fantasiado. As pessoas se empenham muito nas suas fantasias. Eu já vi “mineiros do Chile”, “blue man da Tim”, “bala de troco do Visa”, “seleção de 1982”, “google maps”, “primavera árabe”, “monografia”, entre tantas outras. Quem não vai fantasiado, pelo menos com um adornozinho na cabeça, vai ficar deslocado. A música é excelente, com muitos músicos de qualidade e a participação de cantores do quilate da Teresa Cristina e Moacyr Luz. Já vi também canjas por lá do Hamilton de Holanda, Martinho da Vila, Marisa Monte, João Donato e Yamandu Costa. O bloco faz sua apresentação no domingo de carnaval na Praça XV, que é repleta de árvores, que deixam o ambiente mais arejado e com várias sombras. Acorde cedo, visto que o ideal é chegar antes das 10h. Chegue cedo mesmo, você não vai se arrepender. E prepare-se: nos últimos anos, o bloco tem ido até as 18h. Para depois, as opções são: ir atrás do BoiTolo ou seguir para o Cacique de Ramos. O metrô mais perto (para chegar ao Boitatá) é o Carioca;

g) Comuna Que Pariu: o bloco, no estilo concentra-mas-não-sai, desfila na rua ao lado da Câmara Municipal, na segunda-feira a partir das 15h, próximo ao metrô Cinelândia. É o bloco organizado pela militância do PCB e sempre tem um samba próprio inédito.

Por ter ido na Sapucaí na segunda-feira em 2016 e 2017, acabei ficando sem referência de blocos para a segunda-feira de noite. Mas sei que o Bloco Secreto e o Cacique de Ramos desfilam por este horário;

h) Bagunça Meu Coreto: o bloco, que toca marchinhas e sambas clássicos, desfila pelas ruas de Laranjeiras (saindo da praça São Salvador) na terça-feira a partir das 9h e depois volta para a praça, tocando até o começo da tarde. É um bloco com bastante gente fantasiada e para você mostrar todo seu vigor carnavalesco. A estação do metrô mais próxima é a Largo do Machado;

i) Orquestra Voadora: mais de 100 músicos de sopro e percussão animam a multidão que resiste ao quase fim do carnaval. É no Aterro do Flamengo e dá pra ir a pé do Bagunça até lá. O início é lá pelas 16h;

j) Cacique de Ramos: o tradicional bloco desfila pelo centro (concentração em frente ao Centro Cultural da Caixa) no domingo, na segunda e na terça a noite, meio sem horário pra começar. Isso é sempre uma confusão; em 2016, por exemplo, não consegui chegar em nenhum dos desfiles a tempo. Em 2017, ele saiu as 20h no domingo e super tarde na terça. Continua sendo a melhor opção para o fim da noite.

Se você quiser ir ao desfile das escolas de samba na Sapucaí, é bom se preparar. A principal dica é: levar bebidas e comidas, porque é permitido. Se você não tem um ingresso melhor, compre de cambista na hora, para o Setor Popular, nos setores 12 ou 13. O ingresso oficial custa R$10 e é possível comprar com o cambista por cerca de R$40. É uma boa opção para você conhecer o maior show da terra.

Por fim, vale o registro de que muita coisa faltou aqui. Há, provavelmente, blocos novos para 2018 que eu ainda não tomei conhecimento. Há também várias lacunas nos horários, que permitem emendar outras atrações. Mas tome um último cuidado: priorize uma atração por dia pelo menos, pois acompanhar um bloco inteiro é melhor do que acompanhar 2 meios blocos.

*Bernardo Pilotto é folião.

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