Elite, lulismo e a geleia geral

*Por Luiz Carlos de Oliveira e Silva

1. Em um país como o nosso, onde a elite econômica é tão pusilânime e descompromissada com os destinos do país, a esquerda adquire maior importância ainda. Mas, não há como negar, a meu ver, a esquerda está vivendo a maior crise de sua história.

2. Para o caráter gelatinoso da nossa cidadania, contribuem tanto a pusilanimidade da elite econômica quanto a atual debilidade da esquerda, sufocada que está pelo lulismo.

3. A plutocracia não tem qualquer compromisso com o país. Ou a esquerda ocupa este vazio, definindo um projeto de nação para o país, que contemple os interesses nacionais, democráticos e populares, ou ninguém o fará.

4. Lula desempenhou um papel muito importante na renovação da esquerda no final dos anos 1970 e início dos anos 1980. Mas hoje ele, segundo penso, faz mais parte do problema do que da solução.

5. Para mim, enquanto a esquerda estiver sendo conduzida por uma liderança de tipo carismático, ela não terá condições de se reorganizar para “exercer as funções de medula e osso”, tão necessárias para superarmos a geleia geral em que nos encontramos.

6. A presença de uma liderança carismática como a de Lula torna supérflua toda e qualquer discussão programática. O culto à personalidade de Lula torna supérflua qualquer discussão em torno a programas e projetos de país.

7. Isto porque os lulistas acham que o homem que “tirou 32 milhões de pessoas da miséria” saberá o que fazer. O programa é o próprio Lula e o único projeto aceito é o de reconduzi-lo à presidência da República. O resto “virá por acréscimo”…

8. Para o lulismo, tudo se resume a isto… Seria Lula capaz de reinventar o lulismo?

9. Liderança carismática e culto à personalidade são, por definição, demobilizantes e despolitizantes, tudo de que não precisamos….

10. Some-se a isto o desmonte do que restava do “pacto social getulista”, em meio a uma crise política que caminha em direção à anomia, e veremos o estado a que chegamos.

11. Repito o que disse acima: ou a esquerda ocupa este vazio, definindo um projeto de nação para o país que possa “exercer as funções de medula e osso”, ou nenhuma outra força política o fará.

12. Mas para isto, me parece, ela precisa se reinventar. Ela precisa fazer uma profunda autocrítica para se apresentar como uma real alternativa ao descrédito na política. Caso contrário, o deserto continuará avançando…

13. As duas faces da moeda da atual geleia geral brasileira são o persistente descompromisso da elite com o destino da país e a liderança carismática de Lula com o seu lulismo demobilizante e despolitizante.

PS
O PT surgiu com uma crítica clara e aberta contra as lideranças carismáticas. Esta era uma das nossas marcas mais evidentes, alardeadas aos quatro ventos, sobretudo quando queríamos criticar o trabalhismo, seja na figura de Getúlio, seja na figura de Brizola.
Contrapúnhamos a politização da sociedade às lideranças carismáticas.
Não foi há tanto tempo assim…

*Professor de Filosofia, Política e Literatura.

Texto originalmente publicado no Facebook e reproduzido aqui com permissão do autor.

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