Entre luxos e direitos, onde o conceito de privilégio nos serve?

*Por Sabrina Fernandes

Tem duas formas de lançar esse debate, uma focada na origem do conceito de privilégio, seu uso, sua deturpação, e as referências teóricas que trabalham com isso. A outra é tentando ser direta e didática mesmo. Vou optar por essa pela vontade de ser direta, mas também pra evitar que rejeitem o argumento por conta do meu privilégio de ser estudada.

Então, tem o Fulano privilegiado que mora em uma mansão, viaja de jatinho, come brie e caviar a hora que quiser, bebe Ciroc nas festinhas, e não conhece o problema do desemprego porque assim que formar na faculdade que papai paga, vai ganhar um cargo alto (mas de pouco trabalho) na empresa do tio.

Mas aí tem o Ciclano, aquele que tem o privilégio de estudar em uma escola particular, de ter plano de saúde elitizado, de não ter que se preocupar com pagar aluguel, de poder andar na rua sem ser abordado pela PM nem pelo tráfico etc.

A palavra privilégio foi usada nos dois casos, mas possui significados diferentes e implicações de ação, mudança, e desejo social diferentes também.

No primeiro caso, a noção de privilégio tem o sentido básico de falar sobre o que é luxo ou exclusivo. O Fulano tem acesso a todas essas coisas por conta de sua posição de poder na sociedade, que aqui estamos colocando como relacionada a poder de classe, branquitude, e heterocispatriarcal. Essas coisas a que Fulano tem acesso são luxos porque ele só pode ter essas coisas se outras pessoas não as tem (não há como ter uma bandeira “jatinho para todos”) e o valor dessas coisas é diretamente proporcional ao fato de que o resto da população não as tem. Fulano tem interesse de classe, branquitude, e heterocispatriarcado em garantir que seus luxos continuem sendo luxos, exclusivos de seu grupo. Ele não chega a nem ser o cara que ficou chateado porque agora a classe trabalhadora anda de avião. Ele anda de jatinho. O tipo de vida que ele leva é garantido pela exclusão da maioria da sociedade.

No segundo caso, o Ciclano tem privilégios que na verdade, mesmo que relacionados a classe, branquitude, e heterocispatriarcado, não são em si luxos. São acessos e condições de vida que só são considerados privilégios porque existem em uma sociedade que uns são mais excluídos que os outros. Veja que a exclusão existe em ambos os casos, e o significado de privilégio depende do significado de exclusão, mas no caso do Fulano a exclusão é fundamental pra formar o exclusivo, enquanto que para o Ciclano, um processo de correção da exclusão através da inclusão seria benéfico para ele (relativamente – já volto a esse ponto) e para o resto da sociedade. O que Ciclano tem é acesso a direitos que deveriam ser universais mas não são por conta da desigualdade social e o poder conferido a ele nas estruturas dominantes.

O que acontece se promovemos mais inclusão no caso do Fulano? A relação de poder se altera, porque a posição que sustenta luxo e exclusividade necessita de ser hegemônica.

O que acontece se promovemos mais inclusão no caso do Ciclano? Mais pessoas terão acesso à boa educação e saúde, moradia decente, e segurança pública de verdade que não é discriminatória. A relação de poder também se altera, mas porque teremos mais pessoas como Ciclano e isso melhora até pra ele mesmo. O Ciclano também ganha com o fim da especulação imobiliária. O Fulano que não – mais gente estudada, por exemplo, atrapalha a contradição que permite que Fulano tenha tantos luxos.

É por isso que no caso do Fulano, privilégio tem a ver com algo que queremos eliminar, pois privilégio aqui existe por conta da opressão e exploração. No caso do Ciclano, privilégio tem a ver com direitos, os quais queremos universalizar e garantir efetivamente. Não é sobre expandir privilégios, é sobre expandir direitos pra que essas coisas não possam ser vistas como luxo, ou exclusivas. Um sinal do mundo torto e injusto é exatamente o fato de que enxergamos acesso à saúde de qualidade como um luxo. Tá errado. É um direito que não está sendo garantido. É um direito pelo qual precisamos lutar.

Então, creio que deu pra ver que são dois significados MUITO diferentes pra mesma palavra.

Se é assim, por que continuamos a usar a palavra privilégio quando o assunto é direitos?

Há um valor prático em ainda usar a palavra privilégio, especialmente quando não estamos lidando diretamente com a discussão social, mas como indivíduos navegam a desigualdade dentro da sociedade.

É a parte de reconhecer privilégios, mas não pra entrar na onda liberal do cheque seu privilégio e fique calado. Pouco útil. É reconhecer seus próprios privilégios e a partir daí usá-los pra promover a luta por direitos. O Fulano usa seus privilégios pra reproduzir mais privilégios para si e seu grupo. O Ciclano pode usar seu acesso à educação pra socializar informação, compreender melhor a sociedade, e até aplicá-lo na luta política. Imagina se o Ciclano vira professor e começa a dar aula num Cursinho Popular? Ele está aplicando seu privilégio na luta por direitos. Há muito valor nisso.

É claro – e aqui retomo o “relativamente” ali de cima – que com a expansão de direitos, alguns aspectos dos privilégios de Ciclano terão que mudar. Como homem, por exemplo, o avanço das mulheres significa que ele terá que trabalhar pra eliminar seu machismo individual, e repensar como a sociedade o ouviu por mais tempo simplesmente por ser homem. Coisas assim, que remetem ao processo do indivíduo.

Mas na luta, precisamos falar de direitos. E se falamos de direitos, e não privilégios de luxo e exclusividade, podemos e devemos radicalizar.

Sabe por quê?

Porque sabemos que a indústria da carne envenena a classe trabalhadora. Então ser vegano hoje pode até ser um privilégio, mas não deve ser um luxo. O tipo de veganismo que luta por uma alimentação de qualidade, baseada na justiça social que vai além na nossa própria espécie, é bem vindo.

Porque sabemos que o fundamentalismo religioso ganha muito na doutrinação e dominação de mentes da classe trabalhadora – até mesmo pelo poder de jogar a culpa de tudo no diabo e não no capitalista que explora essa classe. Então ser ateu ou desligado das questões de religiosidade hoje pode até ser um privilégio, mas não deve ser um luxo. É importante ajudar na conscientização por uma fé emancipadora, ou mesmo uma vida sem fé religiosa, quando essas ações afrontam o poder do fundamentalismo.

Porque sabemos que os processos de violência estatal (e sua reprodução social) alvejam os grupos mais marginalizados, que quanto mais pisoteados, mais úteis para a exploração e a garantia dos verdadeiros luxos dos outros. Quanto mais pisoteados, mais doentes. Então falar de saúde mental e auto-cuidado hoje pode até ser um privilégio, mas não deve ser um luxo. Que legal seria se saúde mental fosse socializada também?

E porque não ter seu corpo moído pelo sistema não deveria ser um privilégio, e sim um direito. É auto-explicativo.

Podemos radicalizar sim, fazendo as devidas mediações com as limitações do senso comum e da realidade social das pessoas; ou seja, sem cobranças individuais, mas com incentivos e conscientização que implica concretamente em disputar esse senso comum e fazer luta que mude essa realidade (com acomodações pelos grupos que hoje tem mais direitos relativos para já ir prefigurando mais direitos para os outros).

PS: Escrever e ler textão também é um privilégio – mas não por muito tempo mais. Bora lutar por um mundo em que o trabalho seja reconfigurado, nossas capacidades intelectuais e criativas sejam valorizadas, e pensar uma sociedade melhor seja possível para todas as pessoas, não só quem estudou ou tem algum tempo disponível pra internet e pros debates.

*Socióloga doutora – pedagoga crítica – militante feminista ecossocialista

Texto publicado originalmente no Facebook, reproduzido aqui com permissão da autora e base para vídeo publicado no canal “À Esquerda”: https://www.youtube.com/watch?v=A-yYn3pk5_I

 

 

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