Guinada à esquerda: personagem do folclore brasileiro

11_02_2016_00_24_43Um dos grandes sebastianismos da política brasileira vem dos militantes de esquerda que seguiram no PT mesmo com o rompimento programático sucessivo do partido em direção ao centro e à direita. A crença é a da guinada à esquerda. Trata-se de algo ingênuo e que é muitas vezes usado como justificativa para políticas de direita sob o argumento que “a guinada à esquerda vem aí”. É como o papo de “este ano o Internacional vem forte para o Brasileiro” ou “quando estrear o Valdívia e o Felipão, ninguém segura o Palmeiras”. Neste texto mostrarei o porquê de tal guinada ser improvável neste segundo governo Dilma Rousseff.

Momento perdido logo após as eleições e movimentos contrários

O que levou a crer nesta suposta guinada à esquerda foi o ambiente eleitoral. Dilma Rousseff conseguiu se reeleger com base em um discurso em que não iria fazer medidas anticíclicas na economia, algo comum nos anos FHC. Porém, os primeiros movimentos após as eleições apontou para a formação de um governo com figuras neoliberais no coração da equipe econômica e conservadoras em ministérios como da Agricultura.

Não bastasse, com a crise política avançando e o governo indo em busca de “governabilidade”, nomes técnicos em ministérios-chave foram rifados em troca de nomes políticos e indicações de partidos aliados. Com tão pouca e até nenhuma proximidade do eixo programático histórico do PT pré-governo, é impossível um governo seguir a direção sonhada pelos militantes.

Lula lá atrás poderia ter feito reformas

Muito do que se convencionaria na idealizada “guinada à esquerda” do governo do PT poderia ter sido feita lá atrás, quando Lula surfava em alta popularidade, a economia ia bem, mas o legislativo era abalado pelo Mensalão. Naquele momento, a base aliada era mais sólida. Porém, as reformas necessárias no sistema político e econômico do país não aconteceram, pois o lulismo foi basicamente um modelo de conciliação que não mexeu nos privilégios das classes altas.

Não houve o enfrentamento que precisava ser feito e com os efeitos da crise econômica, evento cíclico do capitalismo, a partir do fim de 2013, o modelo se esgotou. Não há onde ceder em nome de justiça social sem enfrentamento, ainda mais com o salto suicida na política econômica em fazer medidas que freiam consumo num país com arrecadação bastante dependente do próprio consumo, numa bola de neve de baixa de arrecadação gerando déficits e motivando cortes e precarizações.

Composição partidária no legislativo é ilusória e crise política a dissolveu

O modelo político brasileiro evita poderes absolutos por meio de um sistema de pesos e contrapesos entre os três poderes. Ninguém consegue governar sem maioria no congresso. Quando da eleição parlamentar, por mais que fosse o congresso mais conservador desde da redemocratização, o PT alardeou na campanha do 2.º Turno que teria a maioria parlamentar. Teoricamente sim, mas na prática, com quadro de crise política e falta de unidade de vários partidos da base aliada, junto com inabilidade de negociação, o castelo partidário mostrou-se de areia.

Tudo pôde ser visto quando o baixo clero do PMDB se rebelou e, junto com a oposição e o baixo clero do bloco governista, rifaram o candidato do PT (então maior bancada da Câmara) em nome de Eduardo Cunha, do PMDB, no processo de eleição da mesa diretora da casa. Cunha, também conhecido com o Inominável, assumiu o cargo a serviço de seus financiadores e paralisou em muitos momentos o governo com sua postura dúbia quanto a apoios e galgada em conservadorismo fundamentalista. Mesmo com diversas denúncias de corrupção, não abandona a cadeira, e comanda a tramitação de um processo de impeachment contra a presidente baseado nas “pedaladas fiscais”, empréstimos feitos a bancos estatais para não atrasar programas sociais.

Não se sabe o quanto o processo seguirá e isso pode significar o PMDB no poder, o que aprofundaria as medidas neoliberais, pois não teriam nem sequer o freio de alguns movimentos sociais e de parte da militância que ainda acredita no governo petista como sendo de esquerda, além de ter a oposição de direita provavelmente desembarcando em troca de alguns ministérios e de que a Polícia Federal seja freada em suas operações que estão indiciando gente da base aliada e da oposição de direita.

E a resposta do governo foi lotear mais ainda os ministérios em busca de uma estabilidade. E ela não veio.

Bancada segue reduzindo e pulverizando

Se o PT tinha nas eleições a maior bancada da Câmara dos Deputados, agora não tem mais. Perdeu deputados para partidos como a Rede e até para o inexpressivo e oportunista PMB, um partido que se diz das mulheres, mas tem parlamentar com histórico de violência contra a mulher como um dos primeiros filiados, além de negar o feminismo.

Com cenário mais pulverizado, negociar governabilidade é algo impossível, ainda mais para um partido que negligenciou a formação de uma bancada própria em nome de alianças com partidos de centro e direita nos estados em que claramente era o paga-lanche. De um lado, um erro estratégico. De outro, a falência do presidencialismo de coalisão como conhecemos.

Por medidas recentes, nota-se que o interesse de guinar sequer existe na presidência

Mas o mais importante é: não parece haver interesse do governo em fazer isso de ir à esquerda. Basta ver o comportamento de Dilma Rousseff ao sancionar a Lei Antiterrorismo, que não coíbe terrorismo de fato, só servindo para coibir movimentos sociais, e vetando medidas como auditoria de dívida (espantoso ter passado pelo congresso) e medidas de preservação cultural de indígenas, no caso a educação multilíngue em aldeias (veto que deve ter sido comemorado por muitos ruralistas). Logo, é ingênuo acreditar em uma guinada à esquerda de um governo que não tem mostrado interesse nisso e tem medo de tomar qualquer medida que desagrade a ala mais conservadora de sua base por causa do processo de impeachment.

Por isso o título chamando a tal guinada à esquerda de personagem do folclore brasileiro: algumas pessoas acreditam ter visto, mas realmente é algo que não existe e não deve existir neste governo atual. Esperem sentados.

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