Notas sobre a ultra-política

*Por Sabrina Fernandes

A lógica da ultra-política é de ódio, falsa polarização, disputa rebaixada e a despolitização dos antagonismos estruturais que favorece uma política de inimigos morais.

O conceito foi trazido por Zizek em 1999 e depois não mais trabalhado. Eu resgatei o conceito em 2013 pra começar a analisar a conjuntura brasileira e desde então vejo outros autores reconhecerem sua importância pra explicar fenômenos similares no mundo, especialmente onde a esquerda é centro e a direita se levanta com conservadorismos reais.

Sempre que eu menciono a ultra-política, as pessoas com quem dialogo pensam na raiva dos movimentos de direita, nos absurdos que reacionários falam e no ódio que propagam a pobres, petistas, e comunistas.

Mas a mistura de ódio e despolitização da ultra-política tem duas faces, assim como o aspecto da falsa polarização. E aí vemos a esquerda reproduzir a mesma lógica. Acontece na esquerda moderada/petista que começa com o intuito de se defender mas confunde crítica com ataques e internaliza o ódio, externaliza-o defensivamente. Ela também contribui para a despolitização ao legitimar o projeto de despolitização petista que sustentou políticas econômicas que favorecem a classe dominante com mitos como da governabilidade vulnerável e da conciliação de classes. E ao tentar impedir a formação de sínteses na vanguarda e na base que são pré-condições para um avanço estratégico não apenas de esquerda mas fundamental do ponto de vista socialista. Se Lula é odiado de lá, presumem que qualquer crítica, por mais fundamentada que seja, a Lula deve ser motivada por ódio ou para promover ódio, e a partir daí buscam uma blindagem conveniente justificada pela própria ultra-política. E vomitam ódio junto. Esquecem de pensar política como substância.

Só que essa lógica também tem avançado pra esquerda radical facilitada pela fragmentação e o clássico sectarismo. Ainda não ocorre com a mesma intensidade, mas acusações ataques e críticas se confundem e prejudicam o diálogo e a própria convivência necessária para se desenvolver ação conjunta. Disputa política deve ser feita disputando territórios, mas se transforma em em disputa de pessoas e contra pessoas. Falsas polarizações surgem entre supostos revolucionários e reformistas em uma confusão entre tática e estratégia, e auto-proclamação é promovida como se fosse argumento.

A ultra-política é uma das razões que explicam a falta de união da esquerda e que sentar pra se entender passa longe da realidade atual. Ela fomenta ataques reais e defensismos despolitizados contra ataques falsos. As disputas se tornam pessoais e passionais. É o Eu contra o Ele. O Inimigo tem I maiúsculo.

E assim a ultra-política se perpetua. E a crítica perde. E a autocrítica, uma das ferramentas mais importantes na práxis dialética e o materialismo histórico, especialmente no que diz respeito à tática e estratégia, bom, essa passa longe. Bem longe.

*Socióloga doutora – pedagoga crítica – militante feminista ecossocialista

Texto publicado originalmente no Facebook e reproduzido aqui com permissão da autora

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