O Brasil do nulismo

*Por Moysés Pinto Neto

Nós vivemos provavelmente o momento mais tenso de indeterminação política depois do início do ciclo da Nova República em 1988. Parcela da sociedade não reconhece o governo atual como legítimo e considera que vivemos um processo golpista em várias camadas sucessivas que vai se aprofundando. Outra parcela considera que, dada a corrupção sistêmica, os políticos não têm mais qualquer função e começa a flertar com o autoritarismo — que inicialmente ganhou uma forma “soft”, técnico-jurídica, e agora já ameaça uma “hard”, de coloração militar. Os grupos que legitimam o atual quadro político são insignificantes do ponto de vista quantitativo: o sistema está despencando a olho nu enquanto tecnocratas tentam salvá-lo com um plano de austeridade e reformas impopulares. O governismo praticamente inexiste.

Suspensos nesse fiapo, vemos tudo que considerávamos como conquista em risco. Censuras à exposições de arte ou ataque aos direitos LGBTTQ são a expressão de um obscurantismo subterrâneo que ameaça destruir toda retaguarda jurídica e social construída nas últimas três décadas. Usando linguagem chula e populista, ele faz parecer que tudo isso é apenas uma grande conspiração para sustentar parasitas enquanto o pobre indivíduo comum é a grande vítima, o otário que sustenta esse edifício todo de inúteis. Uma política de ressentimento olha para trás em busca do Oásis perdido, a era da segurança, da família e dos bons costumes contra a Modernidade depravada, permissiva e parasita.

Estamos perdidos, então? Há uma ameaça real. Mas é preciso lembrar que na última pesquisa foi publicado um percentual em torno de 50% de rejeição aparecia em relação a todos os candidatos. O que mais cresce no Brasil é o nulismo — a insatisfação de colaborar com o que está aí, a repugnância negativa. Ninguém, nem mesmo aquele candidato fascista que prega pra si estar fora do baralho, consegue se apropriar desse segmento ingovernável.

O que estamos fazendo para mobilizar essa gente toda? Não estamos encarcerados no medo, no ressentimento e no ódio e incapazes de fazer os descontentes sonharem? O nome dessa política cuja matéria é sonho não é utopia? Quem está disposto a mobilizar esses afetos, livrando-se das gaiolas identitárias e buscando construir a partir dessa grande recusa?

Até agora, o conflito que vivemos é só entre duas nostalgias. Estamos presos numa polarização zumbi entre duas forças políticas que nos tornam incapazes de sonhar, nos dividindo em duas grandes identidades que perambulam em linha reta sem pensar, apenas buscando proliferar sua própria forma morto-viva.

*Professor na Universidade Luterana do Brasil

Texto publicado originalmente no Facebook e reproduzido aqui com permissão do autor

Esta entrada foi publicada em Facebook (reprodução), Opinião e marcada com a tag , , . Adicione o link permanente aos seus favoritos.

Deixe uma resposta