O movimento sindical brasileiro

*Por Acleilton Ganzert

Manhã de reflexão após um período intenso de aprendizado. É, nesse momento, assim que estou tentando avaliar tudo que passei e/ou tudo que passamos.

Conheci os sindicatos nos livros durante a graduação em Ciências Sociais. Li sobre algumas experiências históricas de trabalhadores organizados enquanto força política, do papel dos movimentos sociais, de debates sobre paradigmas sob os quais podemos analisá-los, da relação entre indivíduo e sociedade, da estrutura de classes, de problemas de natureza epistemológica, ideológica, ontológica, e tantas outras coisas. A respeito da licenciatura, isto é, da formação para docente, confesso que a da UEL foi muito robusta.

Mas, tem um aspecto disso tudo que não está na sala de aula, nem nos livros, que não cabe nas linhas, nos métodos, nem na etiqueta da linguagem formal da academia. Que não passa na propaganda, sem maquiagem. Há uma dimensão que você só tem noção dela agindo, trabalhando, construindo, desconstruindo. Tanto na escola quanto nos sindicatos de educadores, assim como em tantos outros espaços, a correlação de forças e as disputas, na realidade, não são polidas e educadas, embora também guardem esse aspecto por uma necessidade teatral de parecerem formalmente respeitosas. Nos momentos mais abertos, elas se dão de forma vil e abjeta. Assim, nessa dimensão, experimentamos toda a sorte de interesses e práticas em torno do poder político de dirigir, de mandar e/ou comandar, de organizar, planejar, debater, instruir, formar, avaliar, direcionar recursos, etc.

Nos sindicatos tive o desprazer de ser mesário em uma eleição organizada por um sindicato de base da UGT. Uma primeira experiência quando eu era, ainda, mais jovem. Coisa medonha. Horas de trabalho seguidas, sem dormir, sem comer direito, eu sem entender nada àquela época. Jovem, pobre, sem qualificação, precisando de uma grana e tentando entender o que significava aquela disputa antiética, cruel e violenta. Voltei meus esforços para a formação acadêmica novamente. Nesse caminhar, li sobre os limites da ação sindical, sobre a história do movimento sindical brasileiro, francês, inglês, estadunidense, russo, e, de maneira geral, sobre os processos de constituição da classe trabalhadora enquanto força econômica e política no palco das disputas no interior das sociedades modernas e contemporâneas do Ocidente capitalista.

Desde 2008 que eu guardava alguma relação com o sindicato dos educadores, mas ainda de maneira muito fragmentada, haja vista que só pegava aula, enquanto acadêmico, de uma parte do ano para frente e, muitas das vezes, estava trabalhando com os “bicos”, pois os horários para me dedicar a pesquisa fragmentavam todo o meu dia. A partir de 2013, quando consegui terminar o mestrado em Ciências Sociais, me afastei da academia para me dedicar a docência na educação básica de maneira integral. Também pude me aproximar com mais regularidade da atividade sindical. A conjuntura nos colocou diante de lutas históricas, embora em um período curto de tempo. Fiquei muito entusiasmado com pessoas que conheci e que em suas práticas desencadeavam esperança e fé no futuro, retidão ética, compromisso, responsabilidade, pouca ambição a partir de projetos pessoais, e a crença de que precisamos construir uma saída.

Estive, também, umas tantas vezes nesses últimos anos, diante do que há de pior no ser humano. A disputa vil e abjeta como um monstro autofágico. A fé no futuro, os projetos, a formação, o companheirismo, a camaradagem, a necessidade de construção e fortalecimento de um movimento amplo de participação dos trabalhadores, de uma educação ampla e democrática, voltada para a autonomia, tudo isso atacado por interesses corporativos, mesquinhos e de grupos, aliados a práticas de ataque físico e emocional, de má fé, de promiscuidade com o poder econômico, de humilhação e aniquilamento de corações e almas.

Tive certeza do modo de agir de determinadas forças políticas no interior do movimento sindical brasileiro, aquilo que nos livros aparece de modo bastante polido como “sindicalismo burocrático”, como “aristocracia proletária”, como “interesses imediatos”, experimentei na prática sob empurrões, gritos e xingamentos.

Nosso adoecimento está na moderação. Vamos cada vez mais pela raiz!

*Professor de Sociologia da rede estadual em Campo Largo.

Texto publicado originalmente no Facebook e reproduzido aqui com permissão do autor.

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