Flexibilização do trabalho escravo no Brasil

*Por Victor Miranda

Pq o governo queria “flexibilizar” as normas que classificam trabalho escravo no Brasil? Uma análise singela da lista suja do trabalho escravo brasileiro.

Fiz uma breve análise de palavras e segmentos de texto da “descrição dos estabelecimentos” (que contém endereços, localização estadual, cidade e tipo das empresas) entre os 131 empregadores listados como exploradores de trabalho escravo no Brasil. A maioria das empresas encontra-se em Minas Gerais (43 casos), são denominadas como “fazendas” (77 delas) e/ou possuem endereço localizado como “kilômetro” (52 casos, o que indica a presença de trabalhadores mantidos em certa condição de isolamento).

Indo um pouco além, fiz também uma classificação de clusters baseada nos valores de associação das palavras e segmentos de texto (colhi o resultado de um teste qui-quadrado). Com essa lente, outros bichos estranhos aparecem. Excetuando a parte dos termos de linguagem reincidentes na categoria “fazenda”, fica evidente que a maior parte do mosaico representativo do trabalho escravo brasileiro é composto pela condição degradante e pelo desrespeito às leis trabalhistas na região centro-sul do Brasil. Observando os pedacinhos em seus detalhes, escancara a presença de dois nichos menos frequentes, mas tão signicativas quanto a realidade do trabalho na “fazenda erma de Minas” e com relativa independência lógica e especificidade própria de exploração do trabalho escravo: as oficinas de costura paulistas e as obras de construção civil pelo Brasil à fora.

Ao final, li a lista do começo ao fim e conferi o que aparecia de interessante. Confirma-se nela que o trabalho escravo no Brasil é majoritariamente coisa de “fazenda”, “obra”, e “costura”. Tem trabalho análogo à escravidão nos rincões distantes dos maiores centros urbanos, mas a maioria está no centro-sul brasileiro. Pois tem trabalho escravo em churrascaria chique em Teresópolis-RJ, em usina sucroalcooleira paranaense, em clube de futebol “profissional” no interior de Goiás e no extrativismo de madeira pelo Brasil à fora.Tem até em Dourados-MS.

Mas o significativo parece-me ser “fazenda”, “obra” e “costura”. As serras e morros mineiros estão pontilhados de indivíduos trabalhando sem comida adequada, sem alojamento digno e com salários inadequados (isso quando são pagos!). Essa também é a realidade de várias empresas de confecção de São Paulo-SP e no interior do “estado do PIB”, e em obras de construção de condomínios residenciais ou nas licitações ganhas por empreiteiras que levantam prédios do Estado.

É fácil concluir que um governo golpista, sem legitimidade popular, não terá pudor ao dar de ombros para a sociedade em prol de cadeias produtivas opulentas do centro-sul brasileiro. Eliseu Padilha simplesmente atendeu ao espírito de corpo de “fazenda”, “obra” e “costura” — agronegócio, construção civil e indústria da roupa e calçadista. Ainda que esses segmentos empresariais possuam somente exceções (empresas isoladas, menores) entre os que foram pegos pela fiscalização do trabalho escravo, o espírito de corpo desse pessoal na política é ativado para defender a marginalidade.

(Os valores das associações das palavras e segmentos textuais formam o grafo abaixo)

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

*Professor adjunto da Universidade Federal do Mato Grosso do Sul.

Texto publicado originalmente no Facebook e reproduzido aqui com permissão do autor.

 

Publicado em Facebook (reprodução), Opinião | Com a tag , , | Deixar um comentário

Desobedecer para pacificar

*Por Marcello Bertolo

Internacionalmente, existe uma tendência geral na música que é a utilização de notas agulhadas, estridentes, que favoreçam cantores de maior extensão vocal. Essa tendência tem se refletido também no samba-enredo. A exemplo do que ocorre no sertanejo universitário e na música pop atual, isso ocasiona uma tendência de “pasteurização”, o que provoca a sensação de que os sambas são todos muito parecidos, por recorrerem frequentemente aos mesmos recursos melódicos. Nesse contexto, de valorização da estridência nas melodias, as soluções de letra em geral também perdem criatividade, com uso de muitos clichês, teores apelativos e repetitivos de exaltação das agremiações, uso de palavras batidas, trocadilhos, duplos sentidos forçosos e assim por diante. Esses aspectos nos remetem a lembrar que grandes obras do passado sequer citavam o nome da escola. A identificação da agremiação era pelas características do samba e da percussão que o acompanhava.

A lógica das composições dos sambas-enredo encontra-se hoje numa espécie de limbo entre a popularização e a segmentação. As tentativas de fazer sambas com maior apelo popular acabam descambando para a falta de qualidade, pobreza poética, para os clichês melódicos e apelativos, sendo o mais comum deles o “pergunta e resposta”. Por outro lado, a busca por sambas mais sofisticados, melódicos, com letras densas nos dão a sensação de afastamento de toda uma massa contaminada pela lógica da indústria cultural. Em um cenário como esses, o samba-enredo encontra-se na encruzilhada, entre tentar atrair o público geral ou atender o público especializado.

No meio de um sem número de obras imersas na pasteurização, surgem – especialmente nesta década – sambas que conseguem se sobressair e fugir desses padrões. Esta tem sido uma década de grandes sambas, de algum resgate, especialmente a partir dos sambas da Portela e da Vila do ano de 2012, seguidos por Vila em 2013, Salgueiro em 2014, Imperatriz em 2015, Portela e Viradouro em 2016, Beija-Flor e Mocidade em 2017 e novamente em 2018. Estas obras foram marcadas pela inovação, pela fuga do lugar comum, e contagiaram sambistas de todo o país, gerando furor e clamor. Toninho Nascimento e Luiz Carlos Máximo nos abriram essa porta.

O que esses sambas, que arrastaram um caminhão de seguidores, nos mostram? Eles nos dizem que o caminho do samba-enredo é formar o seu próprio público e o de seus arredores, atender cada vez melhor seu próprio nicho, de forma segmentada, valorizando a qualidade. Diferente do sertanejo universitário e da música pop, a pasteurização do samba-enredo não trouxe qualquer perspectiva de massificação, daí esta não parece ser uma boa solução. Não acho que a mera massificação nas mídias tradicionais, na TV e no rádio, traria o samba-enredo de volta a uma posição mais protagonista. Mais que tocar na rádio e na TV, os sambas-enredo atuais precisam ser executados nas rodas de samba, precisam apaixonar um público potencial enorme que está distante.

Em geral, todos os grandes sambas recentes têm em comum a fuga da pasteurização e da estridência, a criatividade nas letras fugindo da obviedade. Em alguns casos isso teve relação, inclusive, com a aparição de compositores de fora do ambiente do samba-enredo, portanto menos contaminados pela lógica vigente, mais desgarrados dos padrões convencionados, que bebem em outras fontes. Boa parte desses sambas foram por um lado aclamados e por outro sofreram a desconfiança de se era possível desfilar com eles ou se os mesmos atendiam a sinopse, o que sugere uma certa acomodação, uma preguiça em trabalhar com o novo.

A sequência de vitórias da parceria de Altay Veloso e Paulo César Feital na Mocidade nos traz uma nova perspectiva. São sambas que fogem à setorização inicialmente proposta e ao excessivo rigor em abranger a sinopse. São obras que contam o enredo, sem o grau de “tecnicismo” da esmagadora maioria dos sambas-enredo atuais, com inúmeras licenças poéticas, acréscimos de novos elementos, releituras e melodias que pouco ou nada se importam com as convenções estabelecidas nos últimos tempos. O regulamento do quesito samba-enredo permite isso. A Mocidade, inclusive, foi campeã dessa forma, depois de muitos anos em posições inferiores. Nesse contexto insiro também a trilogia da minha parceria na Sossego, com sambas fora da zona de conforto em letra e melodia: sem rima, em forma de diálogo e agora sem verbo. A escola foi campeã do Grupo B, subiu e permaneceu com boa margem na Grupo A.

O caminho me parece estar aí: atender e ampliar o público que lota as quadras, os ensaios técnicos e viraliza os sambas nas redes sociais com obras de qualidade, que consigam fugir do óbvio, absorvam elementos de outras fontes, tanto em letra quanto em melodia. Para tanto, precisamos que as direções de escola, carnavalescos e equipes de carnaval estejam abertos a essas hipóteses, abram mão do excessivo rigor da setorização, do samba como uma espécie de cópia fiel da sinopse, das fantasias e alas.

Samba-enredo não é jingle. No caso do desfile, o samba deveria estar mais para uma trilha sonora de um filme. A canção não precisa entregar de bandeja tudo que vai passar na avenida. Que os novos ventos soprem cada vez mais forte. A mordaça foi tirada, é preciso “desobedecer pra pacificar”, como um dia fez a Mocidade, a Portela a partir de 2012, a Viradouro em 2016, a Sossego nos últimos três anos, como fez a Beija-Flor no ano passado, e por aí vamos… Em tempos de Crivella, é preciso resistir e também é preciso inovar.

*Compositor

Texto publicado originalmente no Facebook e reproduzido com permissão do autor.

Publicado em Facebook (reprodução), Opinião | Com a tag , , | Deixar um comentário

Ideologia de Gênero: O gatilho do pânico

*Por Helena Vieira

Com insônia passei a noite reunindo e lendo material sobre ” Ideologia de Gênero”, porque pretendo escrever a respeito e talvez fazer um vídeo. ( Além de estar empenhada na construção de um dossiê).

É extremamente impressionante como uma ideia, sem absolutamente nenhum embasamento científico ( em nenhuma ciência) parido no seio da Igreja Católica tenha se popularizado de forma tão assustadora e se convertido em verdadeiro instrumento de guerra cultural e política.

Reúne ignorância, pânico moral, verossimilhança e funciona como uma arma que tem sido absolutamente poderosa, e que, 20 anos depois de sua primeira aparição em um documento da Igreja já está nos parlamentos de cada cidade e Estado, pequeno ou grande em mais de 50 países. Espalhada por think tanks, ligada a setores ultra conservadores da Igreja Católica, construída, não apenas como forma de combater as proposições feministas e LGBTs, mas como um instrumento de recentralização religiosa, agora é instrumentalizada por conservadores religiosos e não religiosos.

Diferente do que foram as campanhas anti-gay dos EUA ou anteriores aos anos 90, o dispositivo da ” ideologia de gênero” é um organismo completo, reúne sob o mesmo signo tanto o comunismo, o marxismo, a teoria queer, o feminismo radical, Butler, Marx e Beauvoir e tem sido um dos principais estandartes de avanço da direita.

É muito mais fácil mover as pessoas contra um grupo que elas pensam querem fazer mal a seus filhos do que movê-los por um debate econômico.

A operação retórica dos que criaram essa ideia, ao mesmo tempo que opera criando pânico, medo e tornando o terreno cada vez mais duro para as políticas de igualdade de gênero e orientação sexual, anulam as possibilidades de resposta ou de argumentação:

Se apresentamos dados da ONU, eles dirão que é uma organização controlada pela Agenda de Gênero, o mesmo com os acadêmicos, com as universidades, com os jornais, com os livros. Não há fonte ou referência ou dado capaz de confrontá-los.

Aquilo que chamam de ideologia de gênero se estrutura em distorções básicas:

1-) A distorção de que existe uma agenda internacional de destruição dos modelos tradicionais de família;

2-) A distorção de que o feminismo atual tem por objetivo a supremacia feminina ou ainda o fim da reprodução humana;

3-) A distorção de que o entendimento da homossexualidade como um dado da realidade, como a heterossexualidade, promoveria a destruição ou condenação da heterossexualidade;

4-) A distorção de que queremos confundir as crianças, dizendo que elas devem experimentar múltiplos gênero e múltiplas sexualidades;

É um instrumento de medo, fundado em distorções profundas. Não resiste ao debate acadêmico e por isso foge dele.

Pra vocês terem uma ideia, já nos anos 90 fala-se em um alerta para que parlamentares cristãos façam oposição ao que eles nomearam de ideologia de gênero. Em 98 já falam, em um documento da Igreja, em Escola Sem Partido, mas com outro nome, dizem que o feminismo e a ” agenda de gênero” querem transformar as escolas em ” campos de reeducação”, já falam em doutrinação.

A censura que enfrentamos hoje tem sido gestada há muito tempo.

É isso. Eles nos puseram contra a parede com suas mentiras, nomearam e distorceram os Estudos de Gênero sob o nome de ideologia, palavra usada em sentido pejorativo.

É assustador.

Travesti, escritora e transfeminista.

Texto publicado originalmente no Facebook e reproduzido aqui com permissão da autora.

Publicado em Facebook (reprodução), Opinião | Com a tag , , , | Deixar um comentário

As críticas ao PT

*Por Andrea Caldas

Quando faço críticas aos governos do PT – não obstante, seus avanços- entendo que os partidários pululem a me condenar por estar, supostamente, fazendo o jogo da direita.

Sei que para muitos Lula é última esperança e, de verdade, entendo.

Mas, para mim não é.
Mesmo como petista por 26 anos nunca foi.
Sempre acreditei nos programas e nos movimentos sociais organizados.
Sempre critiquei, mesmo filiada, as concessões e recuos.
Ainda que, em alguns momentos, tenha defendido alianças com partidos burgueses, talvez ingenuamente, por acreditar que isto nos facilitaria a execução do programa que defendíamos.

Entendo que nosso papel na esquerda é fazer avançar e para isto não podemos nos estagnar na mitificação de líderes ou no pragmatismo da governabilidade sem programa.
Governabilidade é necessária, alianças são necessárias, mas não podem ser o fim em si mesmo.

Ainda assim, nunca preguei voto nulo e e mesmo já desencantada com o lulismo defendi o voto em Dilma – publicamente e de forma militante- em 2014.

Mas, não abrirei do meu direito à crítica como cidadã e, especialmente, como professora de Políticas Educacionais (por 25 anos) que tem o dever de honestidade intelectual e política com os estudantes.

Vou criticar todos os recuos. Vou analisar os números que nos mostram que a sangria de dinheiro público para as instituições privadas não começou depois do impeachment, embora, tenha sido agravada por ele.
Vou lembrar que mudanças estruturais que dependiam do Executivo deixaram de ser feitas – e que perdemos oportunidades que, talvez, não voltem.

Alguns acreditam que a força da esquerda se fará por adesão massiva.
Outros, como eu, acreditam que a crítica e auto-crítica é que nos mantém como força vital e transformadora capaz de disputar corações e mentes.

Acredito que a História reserva espaço para todos nós e sempre nos encontraremos nas trincheiras fundamentais.

Hasta siempre!

Andrea Caldas é professora e diretora do Setor de Educação da Universidade Federal do Paraná.

Texto originalmente publicado no Facebook e reproduzido aqui com permissão da autora.

Publicado em Facebook (reprodução), Opinião | Com a tag , , | Deixar um comentário

O fascismo de tipo novo não é apenas dos… fascistas sobre as guerras culturais: o fascio-fakismo

*Por Giuseppe Cocco

Pelo visto as guerras culturais, derivadas do choque de civilizações, são um terreno privilegiado do fascismo de tipo novo que roda no Brasil e Brasil afora. Elas nos colocam questões novas e muitas dificuldades. Vou tentar listar algumas questões.

(a) as guerras culturais são fake, organizadas não apenas na noticia fake, mas em narrativas que se negam entre elas: os fascio-fakistas tem dois grandes temas culturais: a luta contra o islã identificado ao ISIS (publicaram uma foto de Merkel com burka quando ela ganhou as eleições) e ao mesmo tempo querem surfar para impor uma burka-moralista aqui, transformando o justo debate/conflito sobre arte em censura medieval.
Eles produzem fatos fake e narrativas fake: são contra o obscurantismo do ISIS e são iguais ao ISIS.
Mesma coisa acontece com Maduro-Venezuela: são violentamente contra Maduro porque “socialista”, mas querem fazer exatamente a mesma coisa, apoiando e amplificando o fantasma de um Maduro-brasileiro.
Ou seja, o Fascio-Fakismo é um hibrido de ISIS com Maduro.

(b) O fascio-fakismo nos coloca uma série de desafios, alguns deles dizem respeito ao fato que os que dizem se opor a ele são, na realidade, iguais a ele. Por exemplo, os progressistas que defendem Maduro (PSOL, PT, PCdoB, PCB) Vou fazer uma lista de armadilhas, sem querer desenvolver por enquanto:

b.1 – como combater uma política organizada em cima do fake e pelo fake quando o “campo progressista” tem como informação (Fora do Eixo-Ninjas, Brasil171, Diario do Centro das quantas) veiculos que fazem do fake sua forma e conteúdo?
O fake-fascismo quer lutar contra o ISIS para impor o ISIS aqui, contra Maduro para impor o Maduro aqui. Mas o necro-governismo quer lutar contra Temer nos impondo Aécio, quer dizer Temer ….!
O feminismo de facebook ou pseudo-feminismo, aquele que lincha e abriga o coração do Lula, é a mesma coisa: diz lutar pela liberdade da mulher e apenas ressignifica o pior moralismo que aprisiona as mulheres ao pior dos machismos,

b.2 – como combater essas narrativas quando o “campo progressistas” só produz narrativas falsas, desde antes a criminosa campanha eleitoral de outubro de 2014 ???

b.3 – como defender democracia e arte se o “campo progressista” se deixou atravessar pelo fake-fascismo de todo tipo de linchamentos virtuais e reais ao longo de derivas identitárias que claramente impoderavam os sentimentos tristes dos quais nos falavam Spinoza e que tivemos a desgraça de ouvir sendo propagados pela spinoziana-mor da USP?

b.4 como lutar nessa batalha ética e estética se o voto crítico e os professores dos “afetos” acabaram levando Spinoza, Negri e Deleuze por cercadinho da Dilma e do Lula para dizer que “tristes” são sempre os outros?

c – como fazer isso quando nas favelas se matam, esquartejam e queimam as vidas e os corpos dos pobres?

Não sei responder.
Mas sei que é esse o verdadeiro debate …

*Cientista político professor da UFRJ.

Texto originalmente publicado no Facebook e reproduzido aqui com permissão do autor.

Publicado em Facebook (reprodução), Opinião | Com a tag , , | Deixar um comentário