Principalmente às minhas amigas e amigos

por Letícia Camargo

Aos meus primos, tios, aos meus pais, mas principalmente às minhas amigas e amigos.

Esse é meu último texto com a certeza de que posso me pronunciar livremente e defender o que sou, o que faço, o que luto e acredito. Isso pode mudar dependendo do que acontecer hoje.

Você que faz parte da minha vida, que me conhece mesmo, sabe que não me envolvo nem me dedico a nada que não seja para o bem coletivo. Este último alerta é com esse objetivo também.

Eu não sou petista, nunca fui e muitas vezes critiquei suas políticas. Já levei muito cacete na luta contra decisões desse governo. Você sabe que sou ambientalista, sou defensora das populações tradicionais, do nosso direito a ter água na torneira, alimentos sem veneno, biodiversidade e justiça socioambiental. Então lógico que já briguei muito com o PT. Eu não estou discordando da sua frustração e desconfiança, nem ignorando sua opinião, eu estou compartilhando o que tá em jogo agora com base no que sou e vivi.

Você sabe também que eu cresci cheia de privilégios. Sou uma loirinha branca que nasceu na cidade grande com tudo encaminhado. Estudei nos melhores colégios de Curitiba, me formei na melhor universidade, fiz mestrado fora do país e nunca me faltou nada do que é essencial.

Mas você sabe também que já trabalhei como voluntária em Curitiba na favela Pinto, nas invasões do Cajuru, lá na Vila Acrópole, Bairro Novo B, também o C. Que minha militância nasceu nas quebradas do CIC, vendo o esgoto a céu aberto ali no Tatuquara, que fui eu que te contei que essa não é uma linda cidade ecológica. Que foi assim também que descobri que essa é a cidade com mais negros do sul do país.

Você sabe do voluntariado no Conselho Tutelar que fiz, sabe dos inúmeros projetos humanitários que já participei quando apoiava asilos e orfanatos. Sabe que quando fiquei mais velha, além de militar, trabalhei nas periferias com os catadores de materiais recicláveis. Que assim percorri todas as invasões e favelas que curitibano finge que não existe e te contei que existe.

E aí quando saí do Brasil pra estudar tive a oportunidade de conhecer e trabalhar na Europa e na América do Sul, entendi a magnitude do Brasil, a complexidade de se governar um país continental. Voltei certa da nossa desigualdade social e principalmente da imaturidade da nossa democracia. E que foi assim que medi o estrago social da nossa falta de educação e formação política. Foi quando mais que nunca quis me dedicar a melhorar isso.

Quando eu comecei a trabalhar com comunidades no campo, nas florestas, nos rios, nos mares, nos mangues de todo o território nacional (e você sabe que falo literalmente, porque conheci e atendi comunidades do Oiapoque ao Chuí), eu vi com meus olhos a vida de populações esquecidas, em situação de risco e marginalizadas. Eu trabalhei com os tais miseráveis brasileiros, eu te contei sobre isso.

Nesse processo você me viu brigar mto com o PT, lembra? Você me viu e me vê sendo crítica às políticas absurdas do governo de coalizão entreguista que se tornou. Critiquei e critico o PAC q trouxe destruição, roubo e não desenvolvimento, como Belo Monte e tantos outros empreendimentos. Reclamei todos os dias do PT abrindo as pernas pro agronegócio, aceitando qualquer esquema para conseguir apoio dessa bancada. Você sabe das campanhas nacionais que coordenei em defesa da nossa Legislação Ambiental que foi desmantelada no governo Dilma, a pancadaria contra a Copa, as vezes que fiz barricada, que levei bomba, que chutei bomba, as vezes que tive que correr da cavalaria. você sabe, você me conhece.

Mas sabe outra coisa que eu preciso te relembrar que eu vivi?

Que eu também vi na ponta, lá nas comunidades, a diferença que políticas sociais deste governo fizeram. Lembra quando eu estive em Alagoas? Lá eu vi uma mãe desempregada viúva com 3 filhos que a única renda era o bolsa família. Ela dependia das safras de cana de açúcar, mas foi dispensada. Eu contei quando conheci os ribeirinhos no Pará que só se mantém na floresta com seu modo de vida tradicional (o que mantém a floresta em pé) porque recebiam o bolsa verde. Não sei se sabe que chorei quando o Temer cancelou essa política de complemento de renda.

Eu não sei se comentei com todos vocês, mas a moça que limpa o andar do meu trabalho é só mais uma das que conheci que se hoje tem casa, foi graças o minha casa minha vida. Você sabe que eu conheço e apoio o assentado do MST que produz orgânico em agrofloresta (ajudando a recuperar o cerrado lá em Brasília).

Lembra que quando morei e trabalhei no Superagui, no litoral do Paraná, tava junto vendo caiçara se formar em curso técnico do IFPR e chorar de emoção com o canudo na mão? E que eu vi e conheço pescador que sem seguro defeso passa fome?

Você sabe que no Xingu eu vi indígena que se não fosse o Mais Médicos, não teria atendimento na aldeia. Eu te contei que sem a terra demarcada deles eles morrem.

Eu preciso te lembrar que nunca nada disso havia sido feito antes.

Se você não confia neles, tudo bem. Mas por favor, acredita em mim. A ameaça a estas pessoas esquecidas, a estes programas que salvam vidas pra mim já é motivo suficiente pra votar 13. Vou seguir na luta por melhorias, você me conhece e sabe que não tô mentindo. Mas se o autoritarismo e a desumanidade vencer, nem esse direito nós teremos mais.

Eu espero que relembre quem eu sou e o que faço se a desconfiança te tomar hoje, eu nunca menti para você.

Eu hoje sou Haddad pra amanhã seguir com a luta, peço sua ajuda como nunca antes e confiança. Prometo que meu compromisso segue.

Amo vocês, mas #elenão #elenunca

Letícia Camargo

Esta entrada foi publicada em Opinião e marcada com a tag , , , , . Adicione o link permanente aos seus favoritos.

Deixe uma resposta