Qual a diferença entre Cura Gay e Reorientação sexual?

*Por Eduardo D’Albergaria

O Juiz que está buscando legalizar a “cura gay” no Brasil declarou em diversos jornais e portais na internet que sua posição teria sido mal interpretada e que ele não falou em sua decisão sobre “cura gay” ou que homossexualidade seja doença.

Mas o que o juiz não diz em suas declarações é que sua decisão na pratica legaliza a cura gay.

Vejo o que diz a parte da resolução do Conselho Federal de Psicologia que o Juiz está tentando tornar nula:

RESOLUÇÃO CFP N° 001/99:

“Art. 3° – os psicólogos não exercerão qualquer ação que favoreça a patologização de comportamentos ou práticas homoeróticas, nem adotarão ação coercitiva tendente a orientar homossexuais para tratamentos não solicitados.

Parágrafo único – Os psicólogos não colaborarão com eventos e serviços que proponham tratamento e cura das homossexualidades.”

Quando o juiz do Distrito Federal, em sua decisão, reverbera a posição da Psicologa Cristã de que o conselho estaria “censurando” psicólogos e supostamente impedindo “atendimento a cerca do comportamento ou pratica homoeróticas” ele está faltando com a verdade.

A resolução do Conselho de Psicologia não impede que uma pessoa em conflito com sua sexualidade seja atendida por um psicologo. Pelo contrário, ela incentiva. Não para alterar a sexualidade dessa pessoa, mas para que esse paciente encontre paz com seu desejo frente à uma sociedade ainda homofóbica.

Se fosse apenas sobre “atender homossexuais” não haveria qualquer necessidade de uma ação no judiciário (xs LGBTs em conflito com sua sexualidade JÁ são atendidos por psicólogos).

O que o código de conduta proíbe (e esta sendo contestado) é que um/a psicologo/a ofereça tratamento, cura (e por isso é importante afirmar que homossexualidade não é doença) ou reorientação de sexualidade.

Foi esse termo – reorientação sexual -, mais “light”, adotado pelo Juiz.

De fato ele não é a mesma coisa que falar em “cura gay”. No entanto, ele tem uma característica em comum com a cura gay: o charlatanismo de um/a psicologo/a que oferece tratamento sem qualquer respaldo científico.

Ofertar reorientar a sexualidade de alguém, seria o mesmo que um cirurgião plástico ofertar a uma paciente de 90 anos restabelecer a vitalidade de sua pele para a mesma condição que ela tinha aos 20. Não há qualquer procedimento medico que seja capaz de fazer isso.

Assim como não há nenhum instrumento psicanalítico que faça um gay, lésbica ou bissexual mudar a orientação do seu desejo. Como também não há qualquer instrumento da psicanálise capaz de transformar um Heterossexual em gay.

É esse charlatanismo (seja sob o nome de Cura gay, seja sob o nome de reversão sexual) que o Juiz tenta legalizar.

A amplíssima maioria dos estudiosos e profissionais da área concordam que uma reorientação de sexualidade não é possível. Os poucos que discordam (como a psicologa que entrou com a Ação Popular) não o fazem a partir de argumentos científicos, mas a partir de uma perspectiva religiosa. Não à toa, essas profissionais não se apresentam como “psicologas”, mas sim como “psicologas cristãs”.

Foi a própria psicóloga, que agora atua como assessora parlamentar da bancada fundamentalista, que afirmou que a homossexualidade é um “transtorno provocado principalmente por abusos e traumas sofridos durante a infância”.

É esse tipo de “parecer profissional” que o Juiz interveio no Conselho de Psicologia para autorizar como algo legítimo para a ciência psicanalítica.

Ao fim ao cabo, reorientação ou cura gay são dois nomes para o mesmo retrocesso.

*Cientista Social, Especialista em Políticas Públicas e ativista LGBT.

Texto publicado originalmente no Facebook e reproduzido aqui com permissão do autor.

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