Sobre a cartilha da amamentação do SUS

*Por Luciane Alves

Sobre o pré-natal no SUS, até agora: só alegria. Tenho consultas marcadas mensalmente, sou atendida por duas profissionais (uma enfermeira e uma médica) super atenciosas, pacientes, mente aberta, enfim, só alegria. Sobre o atendimento e a estrutura do Mãe Curitibana: nenhuma reclamação com relação ao tratamento recebido de qualquer um dos profissionais que ali atuam, da recepção à consulta, passando pelo laboratório e pela farmácia tudo muito eficiente e zeloso.

Hoje, 08/08/2017, fui ao Mãe Curitibana fazer exame de curva glicêmica e a segunda coleta de sangue dos exames de pré-natal. Aquela sofrência de quem já tá com azia há dias, agora intensificada: ter que ficar pelo menos 10 horas em jejum, levar um furo num braço pra tirar 3 tubos de sangue, tomar líquido com sabor de suco de limão super adocicado (em jejum, com azia, dor no braço furado e sono infinito, ó: teria sido melhor ir ver o filme do Pelé). Como o exame de glicose leva em torno de 2h pra ser feito (toma o líquido, depois de uma hora coleta sangue, espera mais uma hora pra coletar mais um tubo de sangue: ou seja, 3 furos num único dia, dois braços, dor, cacete de agulha!), me foi indicada a participação numa palestra sobre amamentação. Estava acompanhada do meu companheirão e pai pra toda obra, o Bernardo Bechtlufft, e fiquei super feliz de poder ouvir desde já sobre isso.

Pois bem, não foi o que aconteceu. A palestrante, uma profissional da casa (não a conhecia ainda) que trabalha há um bom tempo com isso (informar e treinar as gestantes a entender de gestação e amamentação), nos entregou a Cartilha da Gestante, do Ministério da Saúde. Sobre a cartilha em si, o que posso dizer é que há muito mais pontos positivos que negativos: as informações que ali estão são bastante úteis, dão a devida importância ao parto natural, abordam tabus e preconceitos (adoção, sexo durante a gestação, por exemplo) de uma maneira bastante clara e sem pré-julgamentos. Sobre pontos negativos: tem umas diferenças de tratamento de gênero do tipo “médicos e enfermeiras” (um gap patriarcal bem comum da linguagem cotidiana que coloca homens em cargos superiores e mulheres sempre em cargos inferiores na hierarquia institucional, por exemplo); a diagramação e escolha de cores para falar de gestação perpetua o imaginário de gênero desde a gestação (azul e rosa, claro! jênios do dizáine!!!); os desenhos de formação do feto dão uma ênfase exacerbada à humanização (tem um mini feto sorrindo ali, apesar de ser bem difícil diferenciar um feto de cachorro, de um feto humano, por exemplo), gerando culpa por pensar em aborto desde sempre em todo mundo. Problematizações chiques, eu sei, mas já estava irritada e com azia demais pra deixar de reparar isso. Inclusive, #ficadica amigas da análise do discurso: escrevam sobre a construção discursiva/argumentativa desses folders distribuídos em maternidades, pelo amor de Gaya!

Mas vou ao ponto que me deu vontade de vomitar igual à menina do exorcista: a palestrante lendo essa cartilha, por duas horas. Entendo que há gestantes que não vão ler a cartilha, por isso alguém pode fazer esse favor. Mas há jeitos e jeitos de se ler um texto. E sério! Nunca vi/ouvi tanta perpetuação de elitismo, romantização de gestação, preconceitos de classe e cor e de senso comum e uso de diminutivos (paizinho e mãezinha, pq? Pq? Pq?). Vou só listar os pontos da fala da senhora em questão que me irritaram.Se for fazer argumentação em cima o Zuck me expulsa do face ou coloca limite de caracteres. Encontrem os erros, tirem suas conclusões e conversem comigo:

  1. “Amamentação garante 4 pontos no vestibular da Federal. Se vc amamenta o bebê, ele tem mais chances de ser médico, juiz, doutor. Se vc, mãezinha, que vive na Caximba ou em qq outra região periférica da cidade, em extrema situação de pobreza, amamentar seu filho, ele terá mais chances de ser bem-sucedido materialmente e morar no Batel!!!” (pq amamentação é “ato de amor”, é “obrigatória” e, claro, “tem uma função capitalista”, não uma função vital de prover o melhor alimento – e gratuito – para o bebê…)
  2. “O paizinho e apenas ele deve acompanhar a mãe na hora do parto. Talvez a avó.” Pergunto sobre levar uma doula. “Essas mulheres cobram caro e não são profissionais. Ahh, vc faz questão de uma? Só se o médico deixar. E só pode um acompanhante, então melhor que seja o paizinho, né?” (aham, como se eu não soubesse de uma lei municipal aprovada ano passado que me garante o direito de ter Doula comigo durante todo o processo);
  3. “A certidão de nascimento é um direito. Mas vcs acreditam que tem um povo lá no norte e no nordeste que tem mais de 30 anos e não possuem registro civil? Como é que pode, né? Esse povo é meio irresponsável.” (fala da palestrante, em meio a risos dela e sorrisos amarelados das gestantes que ali estavam);
  4. Colocar o filho para a adoção é um direito (diz a cartilha): “Mas com vcs aqui a gente sabe que isso não vai acontecer, né?” (pq minha US fica no Centro). “Tem umas mulheres lá do Sítio Cercado que tem o bebê e os abandona ainda na maternidade”; (pq será, né, miga?)
  5. “As mulheres com quadro de depressão antes da gestação conseguem superar isso apenas com a gestação, esse ato LINDO, MARAVILHOSO, LIBERTADOR. Depressão pós-parto não existe! Sabe pq? Pq, durante a gestação, a mulher experimenta tantos hormônios no corpo, que eles se reequilibram. Depois que o bebezinho nasce, a mulher não tem tempo pra isso não.” (tá serto…)
  6. “Eu tenho um cartão no meu carro de umas lojas que vendem roupas infantis, ali perto da Prefeitura, bem baratinho”. (pq foi pra isso que eu vim assistir a palestra, né?)
  7. “Antes do Fruet as gestantes ganhavam uma mala LINDA com um bordado escrito ‘Mãe Curitibana’, mas ele acabou com isso. Era tão lindo ver aquelas mães saindo da maternidade com suas bolsas escrito ‘Mãe Curitibana’, pena que isso não existe mais.” (nenhuma defesa ao Fruet, MAS PRA QUE CARALHA TEM QUE TER MALA COM BORDADO? TERIA SIDO MELHOR PEGAR ESSE DINHEIRO E CAPACITAR/RECICLAR ESSES PROFISSIONAIS, NÃO? Ok que algumas mulheres não ganham nada de ninguém, mas vamo falar a real que qq sacola já serve pra carregar as parada, mermão, parem de romantizar o consumo exacerbado, essas malas vão pro lixo depois!!!!)
  8. Sobre fraldas: “tem uma lojinha ali perto do Shopping Estação que vende fralda baratinha, é coisa de médico, vendem mais barato para os médicos, eu tenho o contato ali e posso passar pra vcs”. (no, thanks!)
  9. Após a primeira coleta de sangue pra glicose, entra na sala uma criança, acompanhada de uma senhora. A criança é filha de uma das gestantes. A palestrante sequer dá bom dia, sequer olha pra criança, se irrita pq entrou uma mulher não gestante com uma criança de colo na sala, sem ser convidada. Se irrita pq a criança está chorando de saudade da mãe. Não para de ler a cartilha. Sobrepõe a voz ao choro da criança. (pelo visto, após nascerem, as crianças são tipo a evolução ruim dos bebezinhos nas barrigas das mãezinhas, só incomodam, affe…) (como é que vc dá palestras pra gestantes e não tem paciência com criança chorando????)
  10. Sobre os exames de rotina. Um deles é pra detectar sífilis. A palestrante fala sobre a importância de estar com esse exame sempre em dia, já que aumentou o número de casos no ano passado. Eu comento: “principalmente por causa da queda do uso de camisinha de modo geral”. Ela alerta: “Inclusive, os paizinhos (só tava o Bernardo na sala, desde o começo) devem alertar seus amigos que comentam sobre alguma DST que elas têm aumentado”. (a informação é bacana, mas não é aprofundada: a meu ver, o “paizinho” tem que ser conscientizado tb no pré-natal, fazer uso de camisinha, conscientizar seus amigos sobre a importância do preservativo, dos exames de rotina. Enfim. Informação dada pela metade coloca nas costas da mulher e da gestante a proliferação de DST, quando o problema é a falta de exames de rotina, a exigência disso, para os homens).
  11. Violência obstétrica? Pelo visto não existe, pq não ouve qq menção da palestrante sobre isso.

“Ô, Lu, mas e as dicas de amamentação? “Não aguentei ficar mais tempo por lá sem problematizar. Vim embora. A azia tava me matando. Tanta coisa eu tinha guardada pra dizer há duas horas atrás que agora até já deu uma suavizada. Relatei aqui o que ainda me dá ânsias. Sou privilegiada pra caramba por ter acesso a algumas informações que muitas, muitas gestantes sequer sonham. Preocupa-me o despreparo dessa profissional que lida com gestantes de variadas classes sociais, cores e credos. Preocupa-me que é esse tipo de informação que chega a essas mulheres, com o selo de “informação profissional”. Preocupa-me também perceber uma romantização generalizada da gestação em detrimento dos sofrimentos das mulheres, das crianças que choram e são julgadas como adultos, dos pais. Preocupa-me muito romantizarmos a gestação num sonho capitalista que só vê como cidadãos os sujeitos que podem consumir. Preocupa-me a falta de debate feminista nesses locais.

3 furos no braço é nada, viu.

Estou no sexto mês, gerando uma criança que virá com útero e estou preocupada.

(Comentário do paizão, pq tem lá 1,86m e é uma pessoa enorme tb em humanidade): “Em tempo: sim, SUS. Nada de plano de saúde. Nós, especialmente, temos que recolonizar o espaço público para que todas as mães e pais, de todas as idades, cores e classes sociais tenham o mesmo tratamento e respeito quando busquem o serviço público. Esta atitude ultraindividualista de quem busca o serviço particular, que é caríssimo e nem é tão bom assim, só faz reforçar o racismo, a discriminação e a ausência de cidadania na nossa sociedade. Nós temos que voltar a exigir um serviço público de qualidade e não nos deixar levar por esta tentativa de legitimar a precarização e o desmantelamento do serviço público, justificando-se a privatização, o recurso à iniciativa privada.”

 

*Cantora, vocalista da banda Braseiro, mestranda em Literatura, onde traduz poesia e canção. Também pesquisa e gosta muito de falar sobre feminismo e gestação.

Texto originalmente publicado no Facebook e reproduzido aqui com permissão da autora.

 

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