Sobre o desafio da maternidade

*Por Xênia Mello

18_02_2016_23_50_58

“Você nunca ouviu falar em maldição
Nunca viu um milagre
Nunca chorou sozinha num banheiro sujo
Nem nunca quis ver a face de Deus…
Só as mães são felizes
Não podem mudar a vida”
Cazuza

Meu respeito às mulheres trans cujo desejo de ser mãe é sistematicamente desrespeitado na sociedade que patologiza seus corpos. Aos homens trans que ao parir e amamentar são violentados. Minha solidariedade à mães que enterraram seus filhos, e sua maternidade é saudade, é lembrança, é tristeza e dor, mas também amor e alegria. Meu abraço às mães pretas da periferia que sequer conseguem enterrar seus filhos com dignidade. Minha solidariedade às mães do Cleiton, Roberto e Carlos, Wesley e Winton! Minha solidariedade à família de Jandira, a mãe que saiu pra fazer um aborto nunca mais voltou e deixou duas filhas órfãs. Minha solidariedade às mulheres que queriam abortar e foram obrigadas a ser mãe. Minha solidariedade às mães adolescentes, grávidas indesejadas, cujo parto é carregado de violência obstétrica para que não retornem ali daqui um ano. Minha solidariedade à Bárbara que no Talavera Bruce pariu seu filho numa cela solitária da prisão, em nome dela todo meu respeito às mulheres mães presas, num Estado que lhes sequestra o amor, o afeto e o cuidado digno de seus filhos. Minha solidariedade à Sonia, indígena, cujo filho foi degolado enquanto amamentava. Minha solidariedade à Sandra, que deixou sua filha depois de amamentar em uma sacola gourmet em Higienópolis. Minha solidariedade às mães cujos filhos são consequência de abuso e o Estado é incapaz de garantir um aborto legal e seguro. Minha solidariedade às mães vítimas de violência doméstica que tem o sofrimento de explicar isso aos seus filhos. Minha solidariedade às mães pretas e pobres que deixam seus filhos e saem trabalhar para cuidar dos filhos das mães brancas e ricas.

*Texto originalmente publicado no facebook e reproduzido com autorização da autora.

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